domingo, 7 de fevereiro de 2010

She, quando ela pode


Estou lendo um livro com um título curtinho, SHE.
Robert A. Johnson é um psicanalista da linha junguiana e explora as incompreensíveis atitudes das mulheres sob a ótica de um personagem da mitologia, Psique. A lenda conta que esta bela princesa era perseguida pela ciumenta deusa do mar, Afrodite. Robert explica que a mulher luta com esta força ligada a maternidade o tempo todo agindo muitas vezes de um jeito que maltrata o homem e outras mulheres sem conseguir se controlar.
Na história, a bela princesa casa com Eros que lhe oferece uma vida muito boa exigindo, porém, que não o veja, quando estão juntos ficam na escuridão. Robert ensina que esta é uma atitude comum no homem, sustenta a mulher, mas não a quer se metendo no que ele faz. Seu desejo é um relacionamento superficial, como dos nossos ancestrais brutos, uma "trepada" e tchau.
O mito conta então que suas irmã insistem na necessidade dela conhecer o marido - vai que seja um monstro - e a aconselham a se munir de uma faca e de uma lamparina. A interpretação é que a mulher parte para conhecer o marido com estes dois instrumentos e ao invés de usá-los na ordem lógica, primeiro a luz para ver como ele é e logo a faca para cortar-lhe a cabeça se for um mau sujeito, o lado tempestuoso dela já começa agredindo. Mesmo sem saber se ele fez com má intenção ela já chega rasgando.
Então, o ensino deste conto mitológico é: o homem deve aguentar sua mulher porque ela não sabe por que está batendo, mas a gente desconfia da razão de estar apanhando.

Olha a cabeleira do Zezé


"É por isso que as pessoas preferem uma persona segura: 'este sou eu'; caso contrário, elas não sabem quem realmente são. O principal medo que temos do inconsciente é o de esquecermos quem somos".
Estas são palavras de Carl Gustav Jung em um seminário nos idos de 1923. Por isso é tão importante o carnaval, podemos agir como outra persona sem ficarmos comprometidos com o que fazemos e, desta forma, vivenciamos um outro jeito de viver que nesta vida não estamos autorizados a experimentar. Estas outras maneiras de ser estão todas em nosso inconsciente, o "coletivo", segundo Jung: "Um ser humano tem todas as tendências dentro de si, como todos temos". É isto que se chama efetivamente catarse, mas há outras formas. Jung diz assim: "O teatro é o lugar da vida irreal, é a vida em forma de imagens, um instituto psicoterapêutico onde os complexos são representados; lá é possível ver como estas coisas funcionam. Os filmes são bem mais eficientes que o teatro; são menos restritos, capazes de produzir símbolos espantosos para mostrar o inconsciente coletivo, já que seus métodos de apresentação são tão ilimitados". Quando nos identificamos com o personagem na tela - um aventureiro bem humorado como Harrison Ford em Indiana Jones, ou uma mulher enrolada e insegura do tipo que Renée Zellweger representa em Bridget Jones, ou ainda um sedutor, aproveitador, mas responsável, como Rhett Buttler representado por Clark Gable em E o Vento Levou - é porque temos todos este scripts dentro de nós e sentimos o agradável prazer de viver de novo daquele jeito.
Estas vidas estão em nosso inconsciente porque foram vividas por nossos antepassados e estão gravadas em nosso DNA ou foram vidas que vivenciamos como ser espiritual e estão gravadas em nossa alma ou perespírito. Você decide.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Já ouviu falar em "catch up"?


Ah, não venha me dizer que comeu isso agora mesmo!
"Catch up" quer dizer "tentar alcançar quem está na frente", igual a mim pedalando com Jorginho, o ex-gordo, é "correr atrás do prejuízo".
Aprendi isto lendo um artigo de Yoshiaki Nakano, direitor da escola de Economia da FGV.
"Marx, no prefácil de O Capital afirma: 'O país industrialmente mais desenvolvido mostra ao menos desenvolvido a imagem do próprio futuro'. Na distância que separa os dois situa-se o fenômeno do desenvolvimento."
Pode não parecer, mas isto tem muito a ver com o crescimento espiritual da gente.
"Os países retardatários não deveriam saltar etapas, mas poderiam abreviar o caminho aprendendo com os mais avançados". Os obstáculos são: "Celso Furtado diagnosticou que nossa situação histórica de subdesenvolvimento apresenta patologias" como a escravidão e o jeitinho de driblar as leis de confisco do país colonizador. Até hoje um deputado, muitas vezes bem instruído, mete a mão no dinheiro do povo, que o escolheu como defensor de seus interesses, porque esqueceu que o grito da independência foi dado a quase duzentos anos. Pois é, o safado esquecido pensa que é um Tiradentes, só que escamoteando "o quinto" para o próprio bolso. Uma cambada que ao invés de se elevar em espírito vai cada vez mais "pras profundas". Mas estou divagando.
Para "chegar lá" (hoje estou abusando de expressões idiomáticas) a nação tem de construir duas instituições: "O moderno estado nacional com direitos sociais, civis e políticos, isto é, a verdadeira conquista da cidadania pela sua população, que passa a ser fonte última de poder; e um mercado capitalista eficiente e competitivo". O primeiro quesito é uma elevação espiritual, o indivíduo que se torna livre e poderoso, o segundo pode não ser. O capitalismo faz o ser humano ter, mas nem sempre ser. Para me elevar tenho de SER sempre melhor. Quer dizer, tenho que alcançar com minha bicicleta a Jorginho, o magro, na sua "magrela".

sábado, 23 de janeiro de 2010

Os amigos e a busca da Sabedoria


Deus me permitiu ter, e me esforço bastante para consegui-los, muitos amigos.
Porém, me empenho mais ainda para ter Sabedoria. Não é fácil adquiri-la. Já em Provérbios (1:20-22), na Bíblia, diz: “Escutem! A Sabedoria está gritando nas ruas e nas praças: Gente louca! Até quando terão prazer em zombar da Sabedoria? Será que nunca a aprenderão?”
Lendo Solilóquios, de Aurelius Agostinho, me deparei com uma importante relação: amigos e Sabedoria.
Neste livreto o mestre dialoga consigo mesmo. Vou te mostrar um pedaço:
“- Agora me diz; por que queres que permaneçam contigo teus amigos?
- Para buscar através do companheirismo desinteressado o conhecimento de Deus e da alma. Juntos, aquele que chegasse primeiro à verdade anunciá-la-ia aos outros.
- E se teus amigos não quiserem dedicar-se a esta busca?
- Eu lhes darei razões para procurar a Sabedoria.
- E se eles não puderem buscá-la, talvez porque imaginem já a conhecerem, ou por acharem ser impossível encontrá-la ou por terem outras preocupação e necessidade?
- Então aproveitarei da convivência deles da melhor forma possível.
- E se com sua presença eles te desviarem da busca da Verdade, preferirás ficar com eles?
- Certamente que não!
- Logo, estás querendo a companhia deles como um meio de alcançar a Sabedoria.
- Penso que sim.
- E se tiveres certeza de que teu modo de vida é um obstáculo ao alcance da Verdade, vais querer prolongá-lo?
- Absolutamente, procurarei com todas as forças abandonar os maus hábitos”.
Quer um discurso mais claro? Não podemos permitir a ninguém nos desviar da busca pela elevação de nosso espírito, ou de quem somos como espírito.
E voltando aos Provérbios (4:7): “Para ter Sabedoria é preciso primeiro pagar o seu preço. Use tudo o que você tem para conseguir a compreensão”.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Desmanchando o imbróglio (o nó)

Estou com um baita problema em casa...
Assim uma pessoa começa a se abrir com um amigo.
Mas nem sempre funciona assim. Na maioria das vezes o indivíduo enrusti o problema, não fala com ninguém. Aí, a dificuldade só cresce. Mas temos um termostato dentro da gente e quando o imbróglio começa a mexer com nosso equilíbrio emocional recebemos um aviso, por sonho. Leia este texto de Carl Gustav Jung, de um seminário que ele dirigiu em 1929:
“O sonho, ao enfatizar que estamos em um lugar público, intencionalmente põe na nossa frente a importância de um estado coletivo, em contraposição com seu sentimento intensamente pessoal sobre seu problema. O inconsciente diz que é um problema coletivo, que está acontecendo em toda parte no mundo. Não é só com ele ou com ela. A sombra o admoesta a vir e fazer algo com outras pessoas, de modo a sentir a comunidade naquele problema particular dele. Vocês perceberão o que isso significa para alguém que pensa que é o único que sofre de sua aflição particular e sente-se responsável por ela. Quando ouve que é um problema geral, é confortado, isto o põe de volta no regaço da humanidade, sabe que muitas pessoas estão tendo a mesma experiência, e que não está isolado. Antes, ele não ousava falar a respeito disso; agora sabe que todos o compreendem. A prescrição particular no Novo Testamento - 'confessem suas faltas uns aos outros' e 'suportem os fardos uns dos outros' - mostra a mesma psicologia que nós encontramos nos sonhos. Nós devíamos ter comunhão e companheirismo no problema que é nosso fardo particular, esta é a admoestação do sonho. Assim o drama de um casal é um problema coletivo”.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Um momento doloroso


Estava lendo santo Agostinho no ônibus, indo para o Rio, quando me aconteceu uma coisa, me permita lhe contar.
Depois do acontecido constatei que lia este trecho: "Nesta vida, ainda que sendo a alma bem aventurada com o conhecimento de Deus, não obstante padece de muitos sofrimentos e espera que se acabem na morte".
Então, minha mente largou o livro e me vi sob lages desmoronadas junto a um homem magro e negro que tinha uma perna esmagada e mal respirava com o rosto virado para o outro lado. Comecei a orar com ele: meu Deus ajude este homem, tenha pena dele, dê-lhe sua benção para que ele espere a morte sem sofrer e sem se desesperar, esse irmão, esse pobre irmão meu Deus.
Não chorei, mas meu coração estava traspassado e agoniado por ele e minha respiração ficou opressa. Então tudo passou. Fiquei pensando: será possível que por um instante a minha mente e a mente de um homem na agonia da morte se ligaram e eu estava com ele? Será que se estávamos unidos ele me ouviu rezando por ele? Num momento cruel é tão bom ter alguém segurando nossa mão, rezando conosco, nos ouvindo gemer ou chorar. É tão triste morrer sozinho. Vai em paz meu irmão.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O que é preciso para me tornar um pensador?


Pegue uma idéia, vire e revire-a de todos os ângulos refletindo em cada aspecto, anote o que descobrir e transmita a nós, preguiçosos mortais, esses novos insights para que nos tornemos melhores.
No livro Confissões santo Agostinho pensa sobre o tempo, veja o que ele viu para nós: "Talvez se deveria dizer, com propriedade, que os tempos são três, porém os vejo coexistindo na alma: o presente das coisas passadas (é a memória), o presente das coisas (a visão) e o presente das coisas futuras (é nossa expectativa). Por isso pareceu-me que o tempo é uma distensão da própria alma".
Ora, o tempo está dentro de nós. E sendo eterna nossa alma vivemos os momentos do passado, estamos vivendo os momentos do presente e algum dia teremos vivido momentos que chamaremos de passado.
No pequeno livro Solilóquios, Agostinho diz que seu alter ego lhe ensinou assim, para ser um pensador: "Peça a Deus força e auxílio para cumprir sua tarefa, começe fazendo isto por escrito. Resuma o que for descobrindo também por escrito e não te inquietes exigindo numerosos leitores, ache suficiente ajudar os seus concidadãos".
Por isto não me canso de escrever o que aprendo para você, meu único leitor.