terça-feira, 14 de julho de 2009

Um jeito de viver


O dia está uma pintura. Viajando de ônibus para Nova Iguaçu admiro a paisagem verde e azul dourada pelo Sol forte ao mesmo tempo que leio Brasil País do Futuro. Na já longínqua década de 1950 o escritor assim descrevia o brasileiro: “Em São Paulo, o operário, adaptado a uma organização européia e num clima mais favorável, produz exatamente o mesmo que qualquer outro doutra parte do mundo. Mas mesmo no Rio de Janeiro observei, centenas de vezes, pequenos sapateiros e alfaiates trabalharem até tarde da noite em suas acanhadas oficinas e deveras me admirei de como nas construções com um calor infernal, em que só o erguer o chapéu do chão já é um esforço, o difícil trabalho de carregar material continua sem interrupção em pleno sol. Não são, pois, absolutamente a capacidade, a boa vontade e a velocidade individuais que são inferiores. O que no conjunto falta é a sofreguidão européia ou norte-americana de por meio de esforço dobrado progredir na vida mais depressa; é, pois, antes certa falta de estímulo que mantém em nível baixo a dinâmica total. Os indivíduos aqui não querem muita coisa, não são sôfregos. Após o trabalho ou nas horas do trabalho, conversar um pouco, tomar café, é natural. Ter sua alegria na vida doméstica e no lar é para a maioria o suficiente. Todos os graus do bem-estar, da felicidade, combinam-se com essa calma e serenidade. Sucede freqüentemente, segundo ouvi de várias pessoas, que após o recebimento do salário, o trabalhador falta dois, três dias ao serviço. Cumpriu com diligência e presteza o seu serviço na semana anterior e ganhou o suficiente para, da maneira mais modesta, modestíssima, passar dois dias sem trabalhar. Para que então trabalhar esses dois dias? Rico não poderá ficar com esses poucos mil-réis; é, pois, preferível gozar calma e comodamente esses dois ou três dias. Talvez seja necessário termos visto a exuberância da natureza daqui para compreender isso. Ao passo que numa planície da Europa, triste e sem encantos, o trabalho é a única maneira de evitar a depressão".
Infelizmente nós brasileiros já embarcamos nesta correria européia, até no futebol. Agora, os cientistas e ecologistas dizem que a humanidade, se quiser sobreviver, terá que aprender com o jeito brasileiro de ser, tranquilo, sem invejar quem tem muito e produzindo o necessário para viver. São os ciclos da vida.
(a foto foi "emprestada" do site http://www.noturnafm.com.br/humor.htm )

domingo, 12 de julho de 2009

Mudando o modo de viver


A necessidade é a mãe de todas as coisas, sim, de todos os seres vivos. Outro nome dela é mãe natureza. Mas assim como a gestação de um novo ser exige desconforto e dor, o parto de uma nova maneira de pensar ou a aplicação de novas leis à sociedade requer negociações muitas vezes dolorosas. Foi como se deu com o fim da escravidão. O livro Brasil, País do Futuro, conta: "De ano para ano o problema da escravidão se torna o centro da discussão, cada vez mais forte se torna a pressão dos grupos liberais para de uma vez acabar com a 'negra ignomínia', mas, no mesmo grau, ou talvez em grau ainda maior, cresce a resistência dos círculos agrícolas, que, não sem razão, temem que uma medida tão súbita cause uma crise catastrófica ao país, de cuja economia nove décimos assentam no trabalho de escravos". É assim, parece que uma grande mudança vai acabar com a economia de um país, como se repete agora, no século 21. Quando os cientistas insistem que a emissão de gases poluentes está colocando a vida na Terra em perigo as indústrias teimam em dizer que mudanças na maneira de produzir vai gerar multidões de desempregados e acabar com a economia. A história se repete.
As pessoas sensíveis sofrem aguardando mudanças que demoram como, no tempo da escravidão, sucedeu com o imperador. O livro conta: "É imensamente penoso, para D. Pedro II, esse homem culto, em suas visitas à Europa, ante os grandes representantes da humanidade, cuja estima procura, ante um Pasteur, um Charcot, um Lamartine, um Vitor Hugo, um Wagner, um Nietzsche, ser considerado o soberano do único império que ainda tolera para os escravos o chicote e o ferreteamento". Quando com sua assinatura a herdeira, princesa Isabel, decreta o fim da escravidão o que não se mantém de pé é aquela forma de governo. "Quase sem ruído rola por terra a coroa imperial; também dessa vez, em que ela se perde, não é manchada de sangue, como quando foi adquirida; o verdadeiro vencedor moral é novamente o espírito brasileiro de conciliação”.
O livro Meio Ambiente (que estou lendo ao mesmo tempo) diz que quando o Clube de Roma, em 1971, avisou que o mundo tinha de parar a poluição e as nações ignoraram o aviso porque temiam confusão mundial “coube a delegação do Brasil liderar o movimento contrário a tese da estagnação, pregando a necessidade de uma maior conscientização dos povos da relação que existe entre o meio ambiente e desenvolvimento”. Liberal, o Brasil vai se adaptando e ensinando ao mundo como não é absolutamente impossível se conformar as necessidades de uma mudança no comportamento individual para que a humanidade continue.

sábado, 20 de junho de 2009

Descendo para Angra


Descendo a serra de Angra dos Reis, depois dos túneis, vejo as encostas cobertas de matas. Então reparo na Lua ainda no céu, são 8 horas. Meu pensamento dá um salto, lembro da teoria astronômica de que nosso satélite foi um pedaço arrancado da Terra por um choque cósmico muito tempo antes de surgir vida no nosso planeta. Começo a refletir sobre o tempo, talvez porque pouco antes estivesse lendo um comentário sobre Santo Agostinho e suas considerações a respeito de Deus. Para o patriarca cristão Deus existe numa dimensão onde não há tempo. Enquanto escrevo o ônibus já está em Japuiba, mas ainda estou descrevendo o que se passou em minha cabeça enquanto a condução fazia voltas lá no alto da serra. Veja como o tempo é caprichoso. Então, ainda descansando a vista nas encostas, imaginei como eram aqueles despenhadeiros quando tremendos cataclismos formaram aquelas penedias - bem mais agudas e despidas de vegetação -, e como depois de milênios sob a ação da chuva e dos ventos, do calor e do frio, e da intervenção das plantas e dos animais, como elas foram se moldando, as agudezas se arredondando e o tom marrom do chão seco ganhando uma cobertura com variadas cores, e ficando com o aspecto que vejo agora. Ainda lá naqueles altos percebi como é natural para uma pessoa simples, se admirando com o espetáculo da montanha vestida de matas verdes, emoldurada pelo azul pálido do céu de outono e tendo aos pés o mar acobreado, adorar a Deus como o criador de tão lindas coisas. E nos emociona tanto, com certeza, pela razão que Agostinho menciona quando diz: " Nele (no homem) estão contidos os princípios de todos os seres animados e de alguma maneira a totalidade do universo, e toda a beleza da criação". Ele quer dizer que somos parte, fomos feitos com pedaços dos materiais usados na feitura da rocha e da terra fértil, da braúna e da bromélia, da formiga e da abelha, do preá, da onça e do macaco, até mesmo dos gases que formam a atmosfera azul ou os sais que compõem o mar; por isto toda esta paisagem nos causa tanto bem estar. Mesmo o mais cético e menos sábio que atribui esta pintura a mãe natureza, ente mítico que comanda as leis da física e da química numa construção aleatória, também acha que tudo ficou muito bonita. Ainda outro, místico e romântico, que consegue ver nesta maravilha o trabalho de seres invisíveis, elfos, fadas, salamandras e outros, organizados sob a batuta dos orixás, igualmente se rende a esta lindeza. Mas tudo aconteceu com a permissão do velho mago, o tempo. Ele, o mesmo que me concedeu a oportunidade para escrever isto, sem pé nem cabeça, terminando em um momento tão diverso do que comecei e num lugar tão diferente daquela paisagem de Angra. (foto de Fernando Stickel)

Como o Brasil ficou para trás


Como foi que Brasil estando na frente de todas colônias das Américas até o final do século 17 deixou os EUA lhes passar a frente? O livro Brasil País do Futuro esclarece: "Ao
passo que os Estados Unidos há muito já se governam, ao Brasil não é permitido fabricar
tecidos, tem que obtê-los por intermédio da metrópole. Para intelectuais, para técnicos, para
industriais não deve haver lugar nem campo de ação no Brasil. Nenhum livro deve aqui ser
impresso, nenhum jornal ser publicado, e com a expulsão dos jesuítas tiram-se ainda do Brasil os
únicos indivíduos que difundiam um pouco de instrução. É preciso evitar toda e qualquer
ascensão econômica independente, toda e qualquer comunicação com o mundo".
Bem dessa razão já se sabia, os portugueses jogaram sujo com a gente, como ainda fazem quando os enfrentamos no futebol. Mas Stefen Sweig nos informa de outra causa: "Ainda ao tempo da proclamação da independência, na exportação levava o Brasil vantagem aos Estados Unidos da América do Norte, e as importâncias de suas vendas, em alguns anos, chegaram até a igualar-se às da Inglaterra. Mas no século 19 surge um novo elemento na economia mundial: a máquina. Uma só máquina a vapor em Liverpool ou em Manchester, que ocupa uma dúzia de operários, produz agora mais do que cem escravos e em breve produzirá mais do que mil. No momento decisivo em que se introduz o emprego do carvão, essa nova substância dinâmica para pôr em ação meios de transporte e máquinas industriais, não se descobre no imenso território do Brasil uma única mina de carvão. Todo quilo dessa substância tem que ser importado de longe e tem que ser pago caro com açúcar, cujo valor vai caindo rapidamente. Por isso todo transporte se tornaria dispendioso, e pela estrutura montanhosa do país a construção de estradas de ferro se retarda de irreparáveis decênios e mesmo depois só se vai operando muito lentamente. Numa época em que linhas férreas triplas ou quádruplas ligam o leste e o oeste, o sul e o norte dos Estados Unidos entre si, aqui no Brasil, cuja área é igual à desse país, nove décimos do território distam de trilhos quilômetros e quilômetros, e, ao passo que os vapores sobem e descem constantemente os rios Mississipi, Hudson e São Lourenço, raramente se vê no Amazonas e no São Francisco a fumaça duma chaminé. Por isso numa época em que na Europa e nos Estados Unidos as minas de carvão e as indústrias siderúrgicas crescem de ano para ano, o Brasil até boa parte do século dezenove permanece estacionado e impotente nos métodos do século dezoito. Sua situação econômica no início do século dezenove não deixa de ser, de certo modo, paradoxal, pois precisamente o país que possui mais ferro do que talvez qualquer outro, do mundo, tem que importar todas as máquinas, todas as ferramentas. Apesar de produzir algodão em extrema abundância, não pode deixar de importar da Inglaterra os tecidos de algodão. Como sempre no Brasil, grandes empates de capital que permitissem organizar as indústrias salvariam o país. Mas, desde que cessou o ouro, o Brasil tem falta de capital; por isso suas estradas de ferro, suas primeiras fábricas e suas poucas grandes empresas são construídas ou montadas exclusivamente por companhias inglesas, francesas e belgas, e o novo império, como colônia de grupos anônimos, fica entregue à exploração do mundo inteiro".
Foi assim que nós ficamos para trás. Deficiências políticas, financeiras e falta de um mineral, o carvão. Duas causas são atribuídas ao nosso povo – que nós mesmos menospresamos como pouco sério -, mas a outra foi alheia a nossa vontade. Veja os países árabes do golfo pérsico, vivendo em um deserto receberam da natureza a dádiva de imensas reservas de petróleo. Para quem tem uma visão espiritualista, estas benesses fazem parte de um amplo plano para a raça humana. O Brasil também foi conduzido para um papel no desenvolvimento do ser humano e
agora, mais preparados e com muitos presentes da natureza ainda guardados, quem sabe o Brasil se tornará um pais que vai liderar o mundo em que nossos filhos viverão.

terça-feira, 16 de junho de 2009


Citando o pensador Theodor Adorno: "A masoquista cultura de massa constitui a manifestação necessária da própria produção onipotente".
Veja bem isso. Produzir mercadorias tornou-se a grande necessidade de nosso mundo. No livro Meio Ambiente, mesmo tendo como principal tema este assunto diz: “Já no II e III Plano Nacional de Desenvolvimento, sentimos o interesse de preservar o meio ambiente sem comprometer o processo de desenvolvimento, tornando-se um desafio sério”. A poluição tem de ser controlada sem diminuir a manufatura de mercadorias.
É evidente que se precisam fazer objetos que atendam aos novos humanos que nascem todos os dias, mas o que os trabalhadores ouvem no "chão das fábricas" é outra coisa: Para manter seus empregos vocês têm de bater nova meta.
Assim lutando contra as máquinas que engolem postos de trabalho o operário vive num constante estresse. Na outra ponta o comprador do objeto fabricado precisa ser mantido o tempo todo sob uma estressante pressão psicológica que o induza a adquiri-los, ficando endividado e, assim, mais dependente do emprego que o desgasta tanto. É isto que Adorno chama de "cultura masoquista de massa".
Não se pode fazer nada contra esse círculo vicioso! Podemos. Precisamos dizer não ao desejo de gastar que foi implantado na gente como chip do mal e fazer o contrário do que mandou nosso presidente que já foi operário.. Também devemos lembrar que a premente necessidade de ter e de fazer está nos mantendo sequestrados. Vigiar, porque estão nos dominando e nos fazendo sofrer. Não podemos gostar dessa situação. Não somos masoquistas e se somos não continuaremos sendo. Com o pé no freio dos gastos vamos escapulindo desta armadilha. Fico por aqui, vou trabalhar. Preciso fazer alguém gastar para que eu possa ganhar o meu. Mas, de leve, venho baixando minhas metas e meus gastos, e desse jeito pressionando menos os outros.

sábado, 6 de junho de 2009

Padre Fábio de Melo nas entrelinhas


Fazendo uma releitura do padre Fábio de Melo compreende-se coisas maravilhosas sobre o ser humano. No livro Quem me Roubou de Mim ele diz: "Podemos nos compreender como realidades processuais, isto é, estamos em constante processo de feitura. O ser humano se constrói aos poucos. Tudo já está nele, mas é preciso conquistar-se, alcançar a essência; caso contrário, corre-se o risco de morrer sem ter chegado ao que essencialmente se é".
Um religioso não é necessariamente alguém que pensa o espiritual, ou talvez padre Fábio tenha decidido tratar só do ser humano em sua finitude. Mas não é o caso neste livro, porque, se não todo o esforço que ele nos propõe seria idêntico ao meu se escrevesse este arrazoado e não o salvasse, perdendo-o logo depois de ter escrito tudo. E padre Fábio insiste: "O fundamental já nos foi entregue, resta a árdua tarefa de levantar as paredes".
Para o espiritualista, aquele que vê no humano uma pessoa espiritual vivendo parte de sua existência como um ser biológico, passamos por isto para "tomar posse do que se é, mas que ainda não foi totalmente alcançado". Não que quem pense ser um espírito despreze sua vida terrena, esteja aprendendo só para complementar sua vida no mundo dos espíritos. Nem me diga que ter uma vida longa e bem vivida é o bastante. Já vive 65 anos, vi o Sol nascer e se pôr 21.000 vezes, e ainda quero mais. Preciso fazer tantas coisas ainda! Assim, os tantos que percebem sermos espírito não contam com a idéia de que sendo eternos podem deixar para outra vida a experiência de que fala o padre Melo: "Há talentos que só poderemos saber que os possuímos se fizermos alguma coisa para despertá-los".
Padre Fábio lembra Aristóteles que ensinou que "somos 'ato', tudo aquilo que já é, mas precisamos ser 'potência', tudo aquilo que o 'ato' ainda pode ser". "Terminar é o mesmo que deixar de ser". Só faltou dizer: então, nunca terminaremos porque existiremos sempre.

Uma manhã de céu muito azul trabalhava em Juiz de Fora, na rua Halfeld sempre cheia de gente. Subi em um prédio para visitar um dentista e no corredor passei por um idoso magro, com ralos cabelos brancos, segurando uma pasta velha e magra como ele. Era um vendedor, como eu. Perguntei, quantos anos o senhor tem? Oitenta e sete, foi sua resposta. Louvado seja Deus! - exclamei teatralmente - O senhor me deu a certeza de que jamais passarei necessidade. Poderei trabalhar até quase minha morte.
Não zombava dele. Realmente acho o meu trabalho tão bom que poderia e gostaria de realizá-lo ainda durante muitos anos. Ter a perspectiva - não tanto de ser útil à sociedade, já fiz isso por muito tempo e ganhei minha alforria - de continuar ativo, sem ficar relegado a um canto dando pena aos outros, me enche de estímulo.
Em uma de suas crônicas Paulo Coelho disse: ''Por que um dos sonhos de muitos humanos é um dia deixar de trabalhar? Porque não ama o que faz. Se não está satisfeito corra o risco de mudar tudo e se dedique ao que ama”.
(foto de Olívia de Cássia)