sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Planeta extra-solar


O livro Saber – O Tesouro das Nações diz que “em uma tarde, em 1859, observando a luz que emanava de um frasco onde ocorria uma reação química, o físico Gustav Robert Kirchhoff (1824-1887) sugeriu ao seu colega de pesquisa, o químico Robert Wilhelm Eberhard von Bunsen (1811-1899), que usassem um prisma para estudar os diversos comprimentos de onda de luz pois, acreditava que revelariam os elementos presentes naquela reação luminosa. Colocando entre a luz e o prisma um anteparo com uma fina fenda eles obtiveram um espectro projetado numa tela como uma escala (a fonte de calor que Bunsen usava, o bico com chama fina soprada, foi fundamental nos seus experimentos, pois não interferia na luz produzida pelo composto). Era maravilhoso ver no espectroscópio (que eles logo passaram a usar em todas as experiências) a “impressão digital” de cada elemento, como o sódio (Na) que ao ser aquecido produzia uma luz com uma dupla linha amarela”. Passou a estudar o Sol decompondo a luz de nossa estrela e descobrindo do que ela é feita. Uma manhã, conversando com o gerente do banco onde colocava seu dinheiro sobre a importância de se saber de que é feito uma estrela, o bancário perguntou brincando: “De que adianta saber se tem ouro no Sol se nunca poderemos ir buscá-lo?” Kirchhoff não soube lhe responder porém, dias depois, foi agraciado com uma medalha de ouro da Sociedade Real inglesa e mais um prêmio em moedas de ouro e quando, no dia seguinte, foi ao banco depositar o prêmio, disse todo sorridente ao gerente: “Olhe, este ouro veio pra mim do Sol”.
Na mesma época, em1863, o astrônomo sir William Huggins (1824-1910) usando a recente descoberta do alemão Kirchhoff sobre o uso da espectroscopia no estudo das estrelas, declarou: “Os mesmos elementos que existem na Terra existem nas estrelas”. Só 70 anos depois, em 1932, o astrônomo Rupert Wildt (1905-1976), trabalhando no Observatório de Yale, conseguiu identificar, pela luz que formava a imagem do planeta Júpiter no telescópio, as substâncias químicas, metano e amônia, que compõe sua atmosfera.
Agora, em 2008, colocando no computador as informações colhidas pelos observatórios espaciais Hubble e Spitzer sobre o planeta extra-solar denominado HD 189733b, um astro do tipo do nosso planeta Júpiter, os cientistas da NASA descobriram que ele tem vapor de água em sua atmosfera. Este planeta está a 63 anos-luz da gente. Sem nenhum tripulante, o Hubble usa um telescópio com um espectrômetro de raios infravermelhos. O chefe das pesquisas, o físico Mark Swain diz: “Isto é emocionate. O Hubble nos está permitindo sondar as condições e a composição química das moléculas na atmosfera de outros planetas fora do Sistema Solar. Neste descobrimos dióxido de carbono e monóxido de carbono. Esta descoberta foi excitante porque o dióxido de carbono é a molécula essencial da atividade biológica. O Hubble consegue não só detectar como estimar a abundância das moléculas e mostrou que o HD 189733b bem pode ser um possível anfitrião da vida.” Como é que os cientistas têm certeza de que estas moléculas estão no planeta e não na estrela que circunda? É que, como no sistema solar, aquele sistema tem outros planetas e eles conseguiram estudar a imagem dele em eclipse, só com a luz emitida por seu núcleo quente.
Em 2013 será lançado um outro observatório espacial, o James Webb, com instrumentos muito mais sensíveis e os cientistas esperam com ele saber mais sobre as moléculas e sua quantidade na atmosfera de planetas do tipo da Terra em volta de outras estrelas. Eles querem chegar a perceber as mudanças que estão ocorrendo na atmosfera desses planetas e entender o que está acontecendo naqueles mundos distantes. Imagine, a gente, pequeninos seres humanos neste Universo sabendo o que acontece a milhões de quilômetros daqui! Não é a toa que a religião nos ensinou que devemos ter a noção de que somos "filhos de Deus".

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Fique Aberto a Novas idéias


Claude Leví-Strauss (1908-) é um antropólogo, quer dizer, um estudioso dos costumes do ser humano. Segundo o livro Saber – O Tesouro das Nações, ele disse que: “a sociedade humana é estruturada da mesma forma que as frases numa linguagem, assim, como na comparação de línguas diferentes, as semelhanças são configurações comuns à mente humana”. Nesta sua busca de um padrão universal para o desenvolvimento das tradições e conhecimento humano ele veio ao Brasil, em 1938, para estudar os costumes e lendas de nossos índios. No livro As Estruturas Elementares do Parentesco (1959) ele usa a matemática – a teoria dos conjuntos – para explicar como os diversos níveis de associação se articulam, se interpenetram, e explicam melhor as conquistas do ser humano do que alguns casos particulares. “O homem pode ser definido como um animal construtor de objetos e partindo deles explicitamos as relações sociais. Isso é a antropologia cultural. Podemos, também, partir das relações sociais para compreendermos sua cultura e porque foram feitos os objetos”.
Ele aprendeu com Alfred Reginald Radcliffe Brown (1881-1955) que : “É preciso tomar qualquer comunidade de tamanho conveniente e estudar o sistema estrutural da forma como se apresenta na região, isto é, a rede de relações que liga os habitantes entre si e com os povos de outras regiões”. Mas lidando com nossos índios ele percebeu que “o pensamento indígena tem uma estrutura incompleta, aberta ao outro, que precisa do outro para se completar”. Então abandona o estruturalismo e no livro O Cru e o Cozido ele lança a lei da reciprocidade: “O universal seria a obrigação de trocar, coisas materiais e simbólicas, um grupo com o outro grupo. Isto estaria na base da formação da sociedade humana” (O Globo, Prosa & Verso, 15/11/2008). Recentemente, no livro História do Lince (1991) ele faz uma síntese de tudo que disse antes focalizando o dualismo em perpétuo desequilíbrio. Ao invés de se fechar em dogmas, tabus e preconceitos o homem deve estar sempre disposto a aprender.
Ontem, aconteceu comigo um exemplo disto. Falando com um pretenso espírita, com fama de palestrante, sobre o natal, disse pra ele que Lévi-Strauss explicou no ensaio Os Tempos Modernos (1951) que “a árvore de natal é um desdobramento dos cultos às árvores nos tempos pré-históricos que se prolongou em várias tradições folclóricas”. Disse também que o filósofo aprendeu que o pensamento mitológico indígena não era linear, mas transformacional (isto perturbava sua compreensão racional) “transpondo fronteiras entre humanos e não-humanos, entre o mundo dos homens e dos espíritos e entre a casa e a floresta”. Segundo ele a árvore de natal nos lembra a imortalidade, a vida além da morte, não só porque esta planta sobrevivia ao inverno rigoroso dos países setentrionais, como as florestas nos falam de seres “não humanos”, fadas e duendes que nas terras meridionais são chamados de orixás. Esses elementaes não são somente forças da natureza, mas são também personalidades, seres. Então aquele homem racional que se diz espírita me respondeu cheio de empáfia: “Não acredito nisso!” Me levantei e saindo retruquei: “Assim é fácil. Diz-se, não acredito, e isto nos libera de investigar e aprender”.
Foi isto que Lévi-Strauss aprendeu com os índios brasileiros: “O índio, quando chega um outro (os portugueses ou franceses que chegavam ao Brasil) deixa gerar em sua mente um desequilíbrio (uma dúvida, uma inocente vontade de aprender, como uma criança) fazendo com que surja uma nova lacuna que se preenche e volta a esperar a chegada de outro para voltar a se desequilibrar e ganhar novas idéias”.
Esta vocação de estar aberto ao novo, tão comum na base da cultura de nossos índios, mesclou-se com os cultos africanos que aqui chegaram e com a religiosidade ritualista que os europeus trouxeram e deu neste “homem brasileiro” que Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro tentaram desvendar.
Em um de seus livros, Brasil, Coração do Mundo Pátria do Evangelho, Chico Xavier também falou desta contribuição que este caldeirão de idéias que é o Brasil tem dado aos estudiosos e ao mundo.

Então, não pense que já sabe tudo. Fique receptivo às novas idéias.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

O Salvador da Crise


A gente tem mania de resolver tudo, de eliminar as confusões. Sempre admirei os colonos norte-americanos nos velhos filmes de cowboy. Mal chegavam numa terra desolada cuidavam de construir sua cabana e ir se cercando dos confortos que tinham deixado no leste. O ser humano detesta o caos, precisa de um ambiente regular para se sentir seguro.
Na antiga Grécia, no tempo que aquela região ainda era habitada por tribos rudes e não havia ainda um povo, os helenos adoravam Dionísio, o deus da orgia, das bebedeiras e das festas sem limite. Quando cidades-estado se formaram - Atenas, Esparta e outras - o povo preferindo a ordem passou a adorar Apolo, outro filho de Zeus, que impunha uma adoração com hierarquia e um código de leis que protegesse a vida dos cidadãos e de suas famílias. Era o desejo humano de aplainar seus caminhos.
Bem de acordo com este pensamento, li estes dias um comentário sobre o escritor Ernst Jünger (1895-1998) autor de Nos Penhascos de Mármore defensor da idéia de que a política é efêmera e passageira mas que insistia na existência de alguma coisa verdadeira por trás das ações humanas, desejo este que nunca se esgota e que cristaliza tudo. “Só nos conservamos vivos graças à suposição de uma ordem oculta sob o real. Também é verdade que esta crença sempre carrega uma decepção, pois os acontecimentos não se cansam de nos trair”. Neste livro seus personagens, um agricultor e um poeta, vivem numa terra tranqüila chamada Marina cujos limites são profundos penhascos. Lá em baixo, na Mauritânia, vive um povo violento com uma história de terror. Este livro escrito em 1939 é uma paródia sobre o nazismo.
O partido de Hitler e de sua quadrilha assistiu seu país tão rico ser destroçado por políticos sem patriotismo, assim os nazistas decidiram consertar tudo em uma geração, em 20 anos. Conquistando vitórias expressivas nas urnas foram mudando a constituição, as leis e as tradições germânicas para construir o 3º Reich, um novo Império Romano Germânico. “Eles acreditam que o mundo é um mapa que pode ser manipulado ao seu prazer”. No romance a barbárie rastejou para a terra que vivia sossegada e segura e como um réptil silencioso atirou aquele povo não nas trevas do terror, mas na luz atordoante de mudanças que mexeu com a vida de milhares de famílias.
Jünger, que também era naturalista, estudou Zoologia e Botânica na universidade de Leipzig e era um dedicado pesquisador de sementes e insetos. “Se você se interessa pelos animais e coisas pequenas, o mundo imediatamente se faz imenso”. Ele levou esta maneira de ver o cosmo para sua literatura detendo-se nas minúcias, nos pequenos sinais que indicam as mudanças que podem mexer com nossa vida e de nossa família. E assim precisamos ver o mundo. Olhe com atenção as pequenas notícias nos jornais, elas são avisos do terror que tramado por políticos que acham que são salvadores e podem mudar tudo em pouco tempo acabam tirando toda nossa estabilidade e paz. Jesus avisou que um cristão deve ser assim, vigilante (Mateus 24:32): "Aprendam a lição que a figueira ensina. Quando seus ramos ficam verdes e as folhas começam a brotar, vocês sabem que o verão está perto. Assim também quando virem acontecer essas coisas fiquem sabendo que o tempo está próximo". Ou como dizia Ibrahim Sued, o grande colunista social: "Olho vivo porque cavalo não desce escada".

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Uma Anã Marrom


Na Bíblia tem um livro de poesias no qual em uma delas o personagem é Deus e ele interroga um homem sofredor que não se conforma com sua penitência. Veja estes versos:
“Será que você pode amarrar com cordas as estrelas da constelação das Sete Cabrinhas? Ou soltar as correntes que mantêm juntas as Três Marias? ... Você conhece as leis que governam os céus?”
Isto deve ter sido escrito há uns 3.000 anos e de lá pra cá muitos e muitos homens e mulheres devotaram suas vidas a estudar “as leis que governam os céus”. Nesta busca de respostas um objeto estelar prendeu a atenção de vários astrônomos, eles o chamam de ISO-Oph 102. Não parece um planeta nem uma estrela. Tem 75 vezes o tamanho de Júpiter, o maior planeta do Sistema Solar. Os cientistas decidiram chamá-lo de anão-marrom.
As anãs são estrelas pequenas, geralmente velhas estrelas que a força de gravidade delas mesma vai diminuindo seu diâmetro, como uma vovó idosa que vai encolhendo feito uma uva que vira passa. Elas podem ser vermelhas, laranjas e brancas. Mas a marrom não é do mesmo tipo dessas. É um corpo celeste defeituoso que não teve uma formação normal e nunca será uma estrela nem um planeta. Tanto uma quanto outro são feitos de uma bolha de gás. Este corpo com desenvolvimento excepcional forma uma massa sólida externa, mas tem o interior gasoso em fusão. A pressão abre buracos opostos na crosta por onde fluem moléculas de carbono que formam meios cinturões em volta da anã marrom. Que objeto estranho, não é?
Assim é a criação de Deus. Tudo o que existe foi feito em sete dias criativos. A forma básica feita por Deus vem sofrendo modificações e adaptações em miríades de formas. Sejam ínfimas bactérias ou enormes corpos celestes. Assim sempre surgem novas formas de animais e de objetos interestelares. No percurso aparecem seres mal formados que não conseguem sobreviver e corpos estelares disformes. Mas de algum modo, mesmo estes, cumprem sua missão neste plano gigantesco que é o universo tridimensional.

sábado, 8 de novembro de 2008

Violência em casa


Dei sorte com meus filhos. Não sei mas acredito que esta felicidade foi ajudada por uma boa dose de afeição e preocupação (amor) por eles. Fiz coisas erradas que não chegaram aos ouvidos de meus pais e sempre pensei que meus filhos também estavam armando fora das minhas vistas. Porém, se qualquer deles começasse um padrão de comportamento de transgressão eu precisava estar completamente desligado deles para não sentir ou perceber, e intervir. Assim, quando ouvisse um filho homem falar de conquistar qualquer garota não poderia deixar isto passar em branco. Precisava sentar e conversar. Aquilo que os pais falavam no meu tempo de rapaz ainda vale hoje: Precisa lembrar que assim como você quer que respeitem tua irmã também precisa tratar com correção a filha de outro homem. As coisas mudaram muito. Talvez a garota nem tenha um pai em casa e pode ter uma cabeça liberal que lhe permita usar as carícias do rapaz. Mas uma adolescente, assim como meu filho, ainda não tem bem claro na mente os limites, o que pode prejudicar seu futuro e o da outra pessoa. Então precisam de orientação. E mesmo nesta vida corrida a gente como pai precisa encontrar este tempo.
Disse tudo isto a propósito das palavras da socióloga Eva Blay: “Ódio e vingança. Os homens se preparam para dominar e matar as mulheres”. A violência contra mulher acontece em 29% dos lares nas cidades, na zona rural está em 37%. Em cada três casas, uma não é um lar, é um poço de ódio, um criadouro de seres humanos descontrolados e violentos. Quem quer criar para o mundo um indivíduo que será conhecido como um mau pai, um péssimo marido e um sujeito que vai tornar o mundo um pouco pior? Então, mesmo depois que ele deixa a casa paterna ainda precisamos estar de olhos e ouvidos abertos para saber o que os filhos e genros estão fazendo. A Dra. Eva diz: “Dificilmente o homem vai matar de cara. Ele ofende, xinga, quebra o prato de comida. Depois vai bater para não deixar marca. E isto vai piorando”. Os filhos casados ainda são responsabilidade nossa. Se eles se tornam maus não educamos direito. Educar não é só chamar atenção e muito menos brigar ou bater. Conversar (ouvir e falar) é bom, compartilhar emoções (é o que a maioria dos marginais da vida correta mais sentem necessidade) é melhor e dar o exemplo é o grande lance. Um filho nosso precisa ter uma cabeça boa. Eva avisa que o homem violento em casa não tem uma correta visão da vida: “Na cabeça deste homem ele está educando a mulher dele”, na base da porrada. Um cara que não queria que fosse meu filho, disse na delegacia da Mulher: “Quando ela estava grávida do meu filho, também bati mas não na barriga [que sujeito bonzinho!]. Bati nela grávida dos dois, mas, na barriga, só quando estava grávida da menina”. O que fazer num caso destes? Alguma coisa tem de ser feita pelo pai se não somos tão pirados quanto ele. Eva ensina: “A violência conjugal é uma relação entre dois sujeitos e temos de entendê-los”. Quer dizer ajudá-los a se entenderem, primeiro consigo mesmo.
Da mesma forma com nossas filhas. Precisamos prepará-las para jamais aceitar o desrespeito. O conselho de Cristo de dar a outra face não é de forma alguma para continuar num mesmo vínculo que foi quebrado quando o desajustado levantou a mão para ela. De forma alguma ela pode deixar a casa dos pais pensando em viver com um homem para tentar consertá-lo. E se forçar a saída de casa para tentar ter uma vida melhor que com os pais, então fizemos nossa obrigação toda errada. A socióloga diz: “A violência no lar é uma questão emocional. Porque não é uma negociação de troca, é uma negociação de poder. No caso de Eloá [aquele seqüestro que abalou o país], Lindemberg só queria uma coisa: que ela se submetesse a ele”. E o cara não teve um pai que se apercebesse disto e o ajudasse.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Serendipiti, você vai precisar disso.


Sabe o que é serendipiti (acento oxítano)? Tem um cronista dO Globo que gosto muito. Deixo sua matéria de sábado para ler depois do fim de semana, igual faço com as tiras dos quadrinhos: começo lendo Recruta Zero e deixo Hagar para o final, feito sobremesa. Foi ele, Arnaldo Bloch, que falou desta palavra no dia 4/10/2008. Citou a definição do dicionário de Cambridge: “A afortunada sorte de encontrar coisas valiosas e felizes por mero acaso”. Mas engasguei numa frase do Arnaldo: “A serendipidade é ainda mais bela por nada ter de sobrenatural ou esotérico: está mais ligada à intuição e à inteligência”. Acho que esta frase está errada e poderia dar origem a outras duas corretas: A serendipidade é ainda mais bela por ser sobrenatural ou esotérico: está mais ligada à intuição que à inteligência, ou A serendipidade é ainda mais bela por nada ter de sobrenatural ou esotérico: está mais ligada à inteligência.
Pois o que intuição? Enquanto a inteligência tem a ver com “a agilidade do pensamento”, a capacidade de explorar todas as informações que estão nos neurônios, a facilidade para lidar com a “marcha livre das idéias, da iluminação que nasce do deslize, da imaginação que subverte as soluções fáceis, corre riscos e, no meio do caminho converge para o inesperado final feliz”, a intuição vem “desde o grito original de sofrimento negro”, uma memória emotiva de sofrimentos e alegrias vividas por outras pessoas em tempos longínquos que temos guardada em outra parte de nossa mente, e também do “aproveitamento feliz do acaso”. Acaso que vai “dissolvendo e reestruturando (as personalidades), enriquecendo a malha da vida”.
Bem, o judeu Arnaldo não deve estudar a Cabala nem se importar com questões além da matéria, mas gosto demais do jeito inteligente dele escrever e de sua capacidade de perceber detalhes escondidos em nosso cotidiano.
Desejo à todos muito serendipiti. Que encontrem a felicidade em grandes e pequenas coisas, pelo acaso, pela inteligência ou com os talentos que vêm de outros tempos.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A Queda do Império Norte-americano


Não quero te enganar não, mas iniciar um século nunca foi uma tarefa muito fácil. Coisas pendentes dos cem anos anteriores começam a feder e ninguém aguenta mais. Mudanças começam a acontecer. Não é de hoje que os precavidos falavam dos perigos que cercam as altas finanças. “Seu” Gumercindo, meu pai, comerciante português ressabiado e bem informado, dizia que antes de meter nosso suado dinheiro em ações de empresas devia se aplicar na firma da gente: “Ações é para quem vive especulando com isto”. Agora todo mundo está falando na falta de moral e ética dos financistas e alguns começam a falar que o Mercado precisa ser mais vigiado pelo Estado e que o capitalismo selvagem devia ser extirpado do planeta. Alguma coisa vai acontecer.
Um cientista político na Alemanha, Herfried Münkler, autor do livro Impérios, a Lógica do Dominância Mundial, diz que está no fim a “dominância americana”. Mais um império começa a ruir. Ele compara com o que aconteceu ao findar o império alemão na década de 1920. O fim de um Estado imperialista “provoca inicialmente um vácuo perigoso de poder... Sem a crise que abalou a Europa entre 1929 e 1932, o regime nacional socialista, o nazismo, não teria sido possível”. Não somente ele, mas outros analistas falam do perigo da expansão dos extremistas. Quando o gato sai os ratos botam a cabeça pra fora do esconderijo.
O que deve começar a acontecer, segundo ele e amparado nos exemplos da história, é que a “arrogância” dos EUA vai diminuir: “Como um império o país podia se dar ao luxo de usar uma doutrina unilateralista. A guerra do Iraque e a posição norte-americana sobre o aquecimento global são dois exemplos de como Washington, em vez de acompanhar a decisão da maioria das nações preferiu ditar suas próprias normas. Se podemos falar em algum efeito positivo dessa crise, então ele seria a maior disposição dos EUA de cooperar com a comunidade internacional”. Mas o lado negativo é que sem um xerife internacional “países que lutam para construir armas atômicas, como o Irã, podem aproveitar o estado de fraqueza do Ocidente para uma surpresa. Nunca a situação mundial foi tão frágil”.
Tem outra coisa. O império, nos últimos anos, cresceu desmesuradamente não só por ter criado uma falsa impressão de riqueza, os financistas fazendo que um dólar real se multiplicasse em trinta pela invenção de uma porção de papéis sem respaldo, mas por vender sua moeda ao mundo todo. Herfried disse: “Enquanto os países do Terceiro Mundo entravam em dificuldade com o aumento da dívida externa, Washington financiava seu débito atraindo capital do mundo inteiro”. Veja nosso exemplo: o Brasil juntou U$200 bilhões como reserva contra uma crise de crédito. Essa grana toda foi parar lá. Foi uma coisa certa, o país está mais ou menos blindado. Mas se esta moeda começar a perder o valor, a ser desprezada pelo mundo que vai preterí-la pela moeda chinesa, por exemplo, quem vai querer comprar nossos dólares? Eles mesmo não terão como recomprar os trilhões espalhados pelo planeta. Houve tempo que todo o dinheiro norte-americano em circulação era lastreado por ouro. Hoje, as reservas deles não cobrem nem dez por cento do dólar que circula pelo mundo.
Resta uma coisa para os EUA despencarem de vez, o que sempre aconteceu nos impérios que caíram. As mentes brilhantes trocarem suas universidades, empresas e laboratórios por trabalho em outro país. Foi o que aconteceu com a Alemanha quando o nazismo tomou o poder. Os grandes cientistas debandaram para outros países, especialmente para os EUA, levando seu saber que se transformou em produtos com enorme valor agregado. E isto ainda não está dando pra se ver.

Em todo caso temos de ficar "ligados". Mantendo nossa canoa na direção certa, seguindo o fluxo bom do mundo. Falei canoa, mas devia ter falado "nossa bike". Afinal é andando em cima dela que vejo melhor o que está acontecendo em minha volta.