quarta-feira, 11 de junho de 2008

Aqui qui nóis mora


Quando se anda de bicicleta em noite de lua cheia olhando para o chão não se vê bem a trilha luminosa que se estende lá em cima no céu, a Via Láctea. A última edição da revista Astronomia disse que o primeiro a tentar mapear esta galáxia, da qual a Terra faz parte, foi William Herschel, em 1785. Contando as estrelas nos quatro cantos do céu ou em 600 sentidos diferentes calculou que ela fosse no feitio de um prato oval e com um comprimento em sua parte mais longa do que mais tarde se nomearia como 6.000 anos-luz. Mais de dois séculos depois, em 1951, William Morgan do Observatório de Yerkes traçou um novo perfil para nossa galáxia. Estudando as estrelas por sua emissão de calor explicou que ela tinha a forma de um disco com três braços em forma de espiral e nomeou cada um pelo nome de suas constelações principais: Perseus, Orion, e Sagitarius.
Agora, com exames de rádio, traçaram a forma do gás galáctico solidificado que mostrou um retrato mais definido de nossa galáxia: é uma espiral com quatro braços proeminentes chamados Norma, Scutum-Centaurus, Sagittarius, e Perseus. O braço que Morgan denominou Orion, onde está o Sol e nossa Terra, é identificado agora como um apêndice de gás e poeira situada entre os braços do Sagittarius e do Perseus.
"Traçar os braços espirais é muito difícil.", diz Robert Benjamin da universidade de Wisconsin-Whitewater, "Por muitos anos, os astrônomos de diversos povos criaram mapas da galáxia inteira baseada em estudos de apenas uma seção dela ou usando somente um método. Infelizmente, quando os modelos dos vários grupos foram comparados, eles nunca concordavam.”
Benjamin e seus colegas aplicaram um exame infravermelho (chamado RELANCE) que incluiu mais de 100 milhões de estrelas ao longo de uma área de 130° do céu. Os astrônomos mediram a densidade das estrelas e detectaram uma overdensidade no sentido do braço de Scutum-Centaurus, que começa no centro da Via-Láctea e se prolonga em sua volta. Mas não viram nenhuma quantidade correspondente no número de estrelas associadas as posições previstas dos braços de Sagittarius (mais afastado do centro) e do Norma (mais próximo do centro).
Assim, os novos resultados indicam que a Via-Láctea tem dois braços principais, Scutum-Centaurus e Perseus (mais afastada do núcleo da galáxia), e uma aparência comum às galáxias em espirais. Neles dois estão grandes densidades de estrelas novas brilhantes e gigantes vermelhos mais velhos. Os braços Sagittarius e Norma parecem ser menores e formados por gás e bolsões de estrelas novas.
Uma outra pesquisa encontrou um braço espiral incomum a aproximadamente 10.000 anos-luz do centro contendo aproximadamente 10 milhões de sóis formados com gás de hidrogênio e, estranhamente, parecem vir ao nosso encontro a uma velocidade de mais de 190.000 km/h. Patrick Thaddeus, no centro Harvard-Smithsonian de astrofísica analisou os mapas de rádio do gás galáctico obtidos no observatório de Cerro Tololo no Chile e novos dados saltaram a vista.
Agora os astrônomos entendem que enquanto as espirais giram produz ondas de choque em grande escala que provavelmente esculpi os braços e ordenam seus movimentos externos. Um olhar detalhado nas posições e nas velocidades dos braços mostra que estas áreas orbitam a galáxia mais lentamente do que esperada.
Uma rede combinada de 10 telescópios de rádio conseguiu a melhor definição angular na astronomia da Via-Láctea até agora. Mediu o paralaxe das regiões deformadas pelas ondas de densidade dos braços em espiral que mais velozes alcançam e retardam as nuvens de gás comprimindo-as, o que provoca a formação de estrelas quentes, novas. A diminuição torna a galáxia mais elíptica do que a forma circular idealizada pelos astrônomos.
A procura de respostas, a indagação, em qualquer ciência ou profissão é o que leva à novas descobertas e conquistas. E apesar do estudo do Universo ter aprendido muito ainda há muita coisa para se descobrir sobre este amontoado de estrelas no qual a vida surgiu na forma humana aqui na Terra.

domingo, 8 de junho de 2008


O polonês Jerzy Slolimowski é um cineasta, mas não fez disso sua única atividade. Nos anos da década de 1960, quando a juventude do mundo inteiro se revoltou contra seus pais e a maneira que conduziam seu país, ele fez filmes de vanguarda condenando a União Soviética que estava acabando com a tradição e cultura de sua pátria.
Então, quando o cinema se tornou antiestético e passou a copiar Holywood ele largou seu trabalho e foi viver recolhido numa floresta do interior onde pintava paisagens em tons grisalhos e secos, a cor da Polônia.
Seu exílio auto-imposto foi uma decisão corajosa: “Não existem lugares por mais interioranos que sejam que as noites não sejam iluminadas pelas luzes da TV ou dos computadores ligados. Tudo isso passou a ser supérfluo para mim. Precisava do silêncio e da quietude para criar. No barulho não existe a ordem. Na tranqüilidade eu me permito fazer associações poéticas ao olhar uma imagem.”
Mas o prazer de gritar, “Ação!”, estava em seu coração e quando leu uma notícia sobre um vilarejo onde o homem apaixonado ficava espiando em devoção a mulher escolhida ele deixou seus pincéis e sua palheta e voltou a cidade convencendo um produtor a lhe dar dinheiro para filmar. Com pouco dinheiro criou um filme denso: “A chave para entender o visual de meu novo filme, Quatro Noites com Anna, está na contemplação. É preciso entender o tempo dos movimentos de câmera nesse exercício, diferente do que o cinema industrial faz. Como a história se passa na floresta meus personagens não precisam de telefones, televisores ou internet. Precisam de liberdade contra a opressão do frívolo.”

Se você é dos que gosta de filme de ação é bom nem procura-lo numa locadora porque deve ser um negócio muito paradão, escuro e introspectivo: “A pintura educou o meu olhar para dramaturgias pautadas pela cor. Quanto menos cor no quadro, mais brandas são as luzes de uma seqüência e mais fácil deixar transpirar sentimentos. A câmera tem de se mover com lentidão, percebendo e refletindo sobre o que está a sua frente. Escolhi como protagonista um homem que não é ator profissional e que teve um derrame. Isso limitava seus movimentos e era perfeito para tentar combater a velocidade anti-estética do cinema atual. Um homem de movimentos limitados me permitiria filmar suavemente.” Dá pra ver que filme cult, cabeça, é Quatro Noites com Anna. Mas tem uma coisa que gostaria de ver neste filme, “ele fala de uma forma diferente de amar: a observação do ser amado”.
Com certeza o ritmo cada vez mais louco do mundo precisa ser freado. Tem que ter um cara meio louco, podia ser eu ou você, falando, assumindo e criticando as doideiras que não enriquecem em nada a vida da gente. Os orientais buscam um coisa importante, a meditação, não para contemplar o outro mundo mas para nos fazer deixar de lado as preocupações e vaidades e nos concentrarmos em nosso crescimento humano.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Geração 1968


Geração 1968, já vai tarde!

Não se fala em outra coisa. Políticos corruptos, compositores e empresários que dominam o cenário nacional e mundial eram jovens adultos no fim da década de 1960 e estudiosos e curiosos procuram entendê-los estudando o que aconteceu naquela época. É como se estivessem procurando uma “cabeça de burro” enterrada no passado e que resultou no mundo em que vivemos. Esses velhos com o lema de “vamos mudar o mundo” quase acabaram com ele.
Aquela geração, eu inclusive, era filha da 2ª Guerra Mundial e de pais que viveram um Brasil agrícola e comercial, mas que participaram da explosão industrial. Nossos pais eram pessoas sem muita instrução, beatas e que pautavam a vida por princípios que eram tradições antigas. No meu caso tive a felicidade de ter uma mãe desquitada, não se sujeitou a um marido sem caráter, e um pai que tendo estudado só até a 4ª série lia compulsivamente. Então já eram mais tolerantes.
Antes, nos anos da década de 1950, a gente já pressentia mudanças no ar. Nunca me esqueço da tarde em que preguiçosamente fazia os deveres da escola e uma colega me ligou esbaforida mandando ligar o rádio na Metropolitana. O locutor dizia: "No programa de hoje dedicado a música norte-americana vamos tocar um novo ritmo que está causando furor lá fora, o rock’roll". E o ar se encheu das batidas enfezadas de Blue Suede Shoes, de Elvis Presley.
O poeta Ferreira Goulart diz ( em O Globo de 18/05/2008, Segundo Caderno p 2) que era a contracultura, “os artistas se rebelaram contra o status quo capitalista e a sociedade burguesa que sufocava a visão transcendente de então reduzindo-a a realidade nua e crua”. Era isso que a gente estava sentindo e que nossos pais não conseguiam ver, a transcendência. Goulart explica que aquele “espírito da vanguarda era internacionalista, mas como dizia Mário de Andrade, tudo que é universal é nacional de algum país”. E a garotada da época se empanturrou de cultura norte-americana. O poeta recorda: “Quando, no plano da música, essa contracultura surge no Brasil, ela nega a música popular brasileira e fala do som universal. Para o bem e para o mal esse processo de redução de caráter nacional e regional já era um ímpeto globalizante”. Politicamente isto sepultou o estilo de Getúlio Vargas, um pai dos pobres, um nacionalista e gerou a politicgem que temos.
Mas esta rebeldia contra os pais que saíram da pobreza e só pensavam em ter uma casa bem mobiliada com TV e geladeira e um carro na garagem desmanchou no ar: “No frigir dos ovos aquela contracultura norte-americana foi completamente absorvida e anulada. Ora, ela contestava a sociedade de consumo, mas com ela esta tornou-se mais forte a ponto de transforma contestação em chiclete”.
Então a nossa geração ficou pior do que nossos pais, como já dizia Belchior em Como Nossos Pais: Não quero lhe falar/ meu grande amor/ das coisas que aprendi/ nos discos... Quero lhe contar como eu vivi/ E tudo o que aconteceu comigo/ Vier é melhor que sonhar/; mais na frente diz: Eu vou ficar nesta cidade/ Não vou voltar pro sertão/. Sem princípios, aqueles antigos tabus que norteavam nossos pais, a geração 68 devorou o planeta sem nenhum pudor ou respeito, roubou e mentiu sem dó nem piedade e sem amor a nação, metidos a internacionais venderam a mãe, a pátria, e saquearam o povo já sofrido. Goulart diz isso de modo intelectual: “Essa ruptura pós-moderna alia-se perfeitamente à cultura de massa, à sociedade do espetáculo, a ponto de as artes plásticas virarem performance”.
O que resta pra geração de meus netos? O poeta dá uma esperança: “No meio deste quadro diluidor, porém, há uma faixa de pessoas com fome de transcendência, porque a vida é pouca e nem todos agüentam o nu e cru da falsa realidade dos reality shows. Uma submissão à morte da imaginação. No meio desse turbilhão os mais sensíveis buscam um outro tipo de expressão que tem cada vez menos lugar na sociedade, embora seja, em essência, mais importante. Porque tudo isso aí é espuma, lixo, desaparece pela natureza do que é e não deixa marcas. A vida continua a ser inventada por quem reflete, ainda que cresça, dia a dia, a enxurrada de espuma”. Deus te ouça, Goulart!

Que vale que minha geração está passando, os jovens de 1968 já estão velhos e sua maneira de pensar está acabando. Tomara que surjam outros Mahatma Gandhi, algum Winston Churchill ou alguma madre Tereza nesta nova geração e que façam a vida melhor neste planeta.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

No Tempo da Fome


Não é nenhum fim do mundo, mas o Programa de Alimentos das Nações Unidas anunciou que neste ano de 2008 os alimentos já subiram 57,5%. No tempo em que as nações creditavam suas dificuldades aos deuses pensava-se que um caso desse era uma punição deles, hoje existem as estatísticas e a Economia para explicar nossas dificuldades. Elas mostram, por exemplo, que um pobre sente mais a carestia do que um sujeito rico, pois enquanto para ele os gastos com alimentação correspondem a 60%, 70% do que entra de dinheiro em casa, para este são meros 10%. O fim dos tempos é para uns e não para os outros. E sempre foi assim. No Apocalipse (6:5,6), último livro da Bíblia, diz que sempre que é solto o cavaleiro negro, a fome, ouve-se a cantilena: “Meio quilo de trigo custa o que vocês ganham num dia inteiro de trabalho, mas para quem usa azeite e vinho não lhe custará tanto assim”.
A fartura e a fome vêm em ciclos que se repetem sempre. Mas para quem estuda estes fenômenos a situação é delicada e pode ficar perigosa, explosiva mesmo. O povo que de costume agüenta bem o sacrifício não suporta ver os filhos com fome. Os brasileiros mais velhos ainda lembram do tempo em que o populacho invadia supermercados saqueando tudo. Os especialistas dizem que podem acontecer instabilidade política e catalisar conflitos abalando a ordem pública.
Mas o pior é mais insidioso. O economista Wiliam E James disse (O Globo 03/03 p 25): “Depois de duas décadas tirando miseráveis da pobreza os países em desenvolvimento podem retornar ao empobrecimento caso os preços dos alimentos não voltem ao normal. Os mais pobres podem deixar de comprar roupa e eletrodomésticos, levando ao desemprego ou, ainda pior, abandonando o estudo para trabalhar e formando uma nova geração despreparada para alcançar as metas do milênio decididas pela comunidade das nações”. A fome trava o crescimento e pode causar recuou nos ganhos obtidos. Ela deixa um rastro de miséria que duro anos.
Mas qual a razão do aumento dos preços dos alimentos? Fidel Castro já tinha cantado a pedra quando falou que o biocombustível ia colocar nos carros o alimento tirado da boca do povo. O economista confirmou: “Ao contrário do etanol de cana produzido pelo Brasil, que não tem impacto direto na oferta de grãos, o etanol americano feito de milho é certamente um complicador”. O milho que os EUA produziam em abundância e vendiam para o mundo mantendo os preços em nível equilibrado agora é usado para fazer combustível. Não há sobra para exportar, aí os preços sobem e a polenta e o angu, alimentos básicos da mesa dos pobres, sobem de preço. Assim como a ração que alimenta o frango, o porco e o boi ambém fica mais cara fazendo o preço das carnes subirem como foguete. E como disse o presidente Lula, ainda existem os salafrários, os que para manter seu dinheiro sempre rendendo bem começaram a aplicar em commodities dos agronegócios fazendo que a médio prazo (até o início do ano que vem) o custo do alimento já fique com viés de alta crescente.
E tem o petróleo. Um especialista da área, Neal Ryan, disse (O Globo 10/05 p 35): "Há uma avassaladora relutância em admitir que estamos simplesmente em um novo paradigma de preços e não muito distantes de um colapso global da economia. Os preços do petróleo simplesmente não vão recuar para o patamar de US$75 (bateu US$126 no dia 09/05/2008)". E a gente sabe bem qual o peso desta matéria prima na cadeia de todos os preços.
Então, é se cuidar. Cuidado com dívidas porque a barriga não consegue esperar. Mas não é para desanimar. Fique sempre lembrando que depois da tempestade vem a bonança.

sábado, 26 de abril de 2008


A Formação de uma Nação

Os militares e alguns políticos andaram avisando que no norte de Roraima, nas aldeias indígenas, o inglês é mais usado que o português e ante o perigo do Estado brasileiro perder um pedaço de seu território voltam as discussões sobre o que é uma nação.

No O Globo de 05/04/2008 p 3 do Prosa & Verso comenta as três definições mais comuns do que seja nação. O primordialismo explica que ela se forma pelos laços antigos entre seres humanos; o etno-simbolismo ensina que elas se formaram “pelo desdobramento de ligações entre pessoas pertencentes a comunidades étnicas antigas com uma comunhão de valores e símbolos”, uma mesma cultura; e o modernismo diz que as nações são “um fenômeno extremamente recente na historia humana”. O professor inglês Benedict Anderson, defensor desta última linha de estudo, diz que a noção de “nação não é algo natural, inerente á raça humana, mas uma coisa que se tornou possível a partir de determinadas condições”. Que são: a organização das comunidades religiosas, as descobertas marítimas de novos continentes, as mudanças provocadas pela industrialização de produtos e o aparecimento dos sistemas educacionais nacionais.

Para Benedict as razões mais determinantes foram: a publicação de literatura no vernáculo ao invés da língua sagrada, o Latim; fim do absolutismo e do poder baseado no “direito divino dos reis”; a percepção da passagem do tempo e do movimento e da mudança das coisas. Ele diz que a “concepção medieval da simultaneidade-ao-longo-do-tempo é uma idéia de ‘tempo vazio e homogêneo’, por assim dizer, transversal, cruzando o tempo como uma coincidência temporal” e cita como exemplo a representação dos personagens bíblicos de antes e depois de Cristo vestidos e ambientados como os cidadãos do século XVIII.
Logicamente o político sempre “antenado” viu no nacionalismo um poderoso instrumento para manter as pessoas que viviam uma mesma cultura sob seu governo.
Assim, um amazonense compartilha história, músicas, crenças religiosas, comidas e festas com um baiano ou um gaúcho – apesar das diversidades regionais que só enriquecem a nação.
Por isso é importante que não se permita aos estrangeiros criar uma cultura em substituição ao pequeno vínculo que os índios da fronteira norte têm com o restante dos brasileiros.

Então continuaremos vivendo como uma nação até que chegue o tempo, como dizia John Lenon, em que não haverá mais nações e toda humanidade viverá e resolverá seus problemas como uma grande nação.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A Traição


A TRAIÇÃO
Nas cartas ciganas a figura do urso sempre me impressionou, ela significa traição, uma das mais baixas atitudes humanas. Quando confiamos nossa segurança à alguém e ela tira nossa estabilidade psíquica nos causa muito mal, já que dela não esperávamos isso. Quando um estranho nos prejudica ficamos ofendidos com a fraude, mas quando parte de alguém que amamaos e depositamos nela nossa confiança então ficamos mais que ofendidos, somos feridos. Estou dizendo isso porque esta noite me afligi pensando no sofrimento da menininha Isabelle. A garotinha via na figura do pai a segurança completa e o carinho mais absoluto, assim (se) quando ele esbravejando feito louco apertou seu pescoço sufocando-a, mais que a dor e o medo da morte um desfalecimento tomou seu coraçãozinho e fez sua cabecinha inquirir: “Paizinho??!!”.

Segundo a visão espiritualista, quando ela morreu seu espírito se separou do corpo e mesmo então ela continuou sentindo dores, mas suplantando tudo seu coração ardia de desespero por ter sido ferida por quem ela mais depositava confiança. Fiquei imaginando o sofrimento dela olhando nos olhos quem amava e qual um animal raivoso a atacava sem qualquer piedade.

Com a mesma esperança no espírito acredito que ela deve estar cercada por outras almas que a consolam enquanto os traumas desta recente vida vão desaparecendo e ela vai assumindo de novo seu caráter de ser espiritual que teve nesta traição mais um aprendizado em sua longa busca da perfeição.

Já (se foi) seu pai amontoou sobre sua vida espiritual uma culpa que mesmo que se a arrependa e seja perdoado por Deus, terá que saldar com aquele ser irmão esta intensa decepção "até o último centavo". Então, longa vida para (se foi) o pai de Isabelle para que esta ovelha perdida volte para o meios dos fiéis depois de ter feito as pazes e recebido o perdão daquele ser que por agora foi Isabelle. Mas as penas que ele irá passar como resgate peço ao Pai Celeste força moral para que consiga evitar.

sábado, 29 de março de 2008

O IDEAL E A ÉTICA


Cada um de nós tem seu ideal. O meu é ser livre, ter o menos amarras possível, andar por esta vida sem carregar muito peso. Consegui isto desenvolvendo um trabalho sem patrão e com poucas obrigações e andando de bicicleta pelas estradas das serras de nossa região. Estimo que cada amigo meu consiga alcançar o seu ideal e ter felicidade.
Porém, para que nosso ideal não prejudique a vida de nosso próximo ele precisa ser contido pelos limites da ética. Foi exatamente sobre isto que o cientista político João Roberto Martins Fº, professor na Universidade de São Carlos, SP, falou ao O Globo no dia 23/03/2008 p 14. Em 1968, no Brasil e em outros países, os estudantes estavam tão cheios de ideais que formaram um ativo movimento estudantil. Por tudo iam as ruas exigindo educação mais eficiente, melhores transportes, mais correção na classe política, mais liberdade e, no Brasil, a volta a normalidade democrática com os militares devolvendo o poder político que tinham tomado com um golpe em 1964. Enfim, queriam um país melhor. Em nosso país militares também tinham o peito estourando de ideais: eliminar as idéias comunistas do meio de nosso povo e formar um governo mais correto e eficiente. Cada lado levou seu ideal às últimas conseqüências.
Em junho daquele ano a União Nacional dos Estudantes conseguiu levar às ruas uma multidão de pessoas em protesto no que ficou conhecido como a Passeata dos Cem Mil. Os militares responderam invadindo a UNE em agosto. Um deputado protestou em meio a uma câmara amedrontada, a junta militar criou o Ato Institucional 5 prendendo e desempregando qualquer um que ousasse protestar contra seu governo com mão de ferro e estudantes e políticos caíram na luta clandestina contra a ditadura.
Os resultados todos conhecemos, mas como tenho tantos amigos jovens que nasceram bem depois desta época é bom lembrar que milhares de brasileiros foram presos, centenas foram torturados e mortos e outros tantos se exilaram em outros países – muitos eram professores e cientistas importantes para o desenvolvimento de nosso país. Todos saímos perdendo quando os ideais extrapolaram os limites éticos e morais. E quando isto acontece o infrator tem de carregar a culpa pelo que fez até que pelo bom comportamento e pela retratação de seus maus atos consiga limpar sua imagem.
O professor Martins Filho diz que as Forças Armadas do Brasil ainda não conseguiram a admiração do povo porque mesmo tendo se pautado por um bom comportamento desde que devolveu o poder e aceitou a democracia como modo de se viver não confessou os erros que praticaram naquele momento histórico e teimam em escondê-los. “A oficialidade de hoje tem pouco comprometimento com o que aconteceu naquela época, mas essa oficialidade ou vai ficar sempre se defrontando com a imagem do Exército que participou da repressão, ou vai ver que a melhor atitude seria fazer um documento reconhecendo que houve, pelo clima da época, grandes erros”.
Porém, um fato ainda precisa ser explicado, pois ele parece desmanchar todo argumento contra o ideal sem ética. “A luta da memória quem venceu foi a esquerda. Até hoje ela aparece como heróica”. Aqueles que por seu ideal também extrapolaram os limites éticos seqüestrando, explodindo bombas e assassinando são romantizados como heróis até hoje e conseguem dividendos políticos por terem feito aquilo. O professor dá uma pista sobre isto: “Os militares esqueceram uma lição de Carl von Clausewitz, um técnico da guerra: ‘A guerra é dominada pela política’”. Como é que podemos aplicar esta lição em nossa vida individual quando por causa de um sonho abandonamos obrigações e direitos? Não sei.