sexta-feira, 28 de setembro de 2007


Vivendo em Cidades

Quando se lê o livro Quem Roubou o meu Queijo? Aprende-se a vencer o medo e avançar para novas conquistas e mudanças, mas o que realmente me tocou nele foi a chave para nos sobrepormos ao medo: ter uma idéia clara das mudanças que estão ocorrendo em nossa volta.
Então, no O Globo de domingo li o artigo Planeta Favela comentando a visão de mundo do historiador Mike Davis que também é um teórico da moderna urbanização. “É um fato épico, pela primeira vez na história a população urbana é maior que a rural, mas o mais importante é a dinâmica por trás desta estatística. Desde 1950, 2/3 do crescimento da humanidade foram para as cidades e até 2060, quando a população humana atingirá seu máximo biológico, 10,5 bilhões de pessoas, todos os novos habitantes do planeta, a quase totalidade dos nascimentos acontecerá dentro das cidades”.
Um comentário. Os religiosos conservadores entendem que a ordem que Deus deu a raça humana: “Tenham muitos e muitos filhos, espalhem-se sobre a Terra e a dominem”, indicava que seu desejo é que a nova espécie dominante do planeta não ficasse aglomerada em cidades, mas vivesse no campo com bastante espaço entre as famílias. Esta interpretação é corroborada pelo que os humanos que sobreviveram ao dilúvio que inundou as terras do norte da Mesopotâmia, no que hoje é a Armênia, disseram: “Vamos, pessoal! Vamos fazer tijolos queimados e construir uma cidade que tenha uma torre que chegue até o céu. Assim ficaremos famosos e não seremos espalhados pelo mundo inteiro”. Este conceito serviu de incentivo para os nômades hebreus viverem em tendas mantendo-se afastados das cidades muradas e de seus costumes corrompidos.
Então, por séculos e séculos, ao passo que as cidades proliferavam e cresciam em tamanho transbordando para além das antigas muralhas, tudo o que acontecia de maléfico era atribuído ao aglomerado humano que por esta atitude desobedecia a uma ordem divina. As pragas, a seca e a fome e as guerras que dizimavam milhares de vidas tinham como causa o amontoado humano nas cidades.
Agora, este pensador apoiando a idéia antroposófica ensina que serão nas cidades que os humanos conseguirão “lidar com a mudança do meio ambiente e com o desafio do aquecimento global. Elas são a maneira mais eficiente de se viver em um mundo de recursos limitados”. Sua visão da situação é que se os humanos ainda vivessem em maior proporção no interior, a degradação dos rios, queimadas e gastos de energia seriam maiores do que vivendo todos numa grande concentração urbana. Porém, Davis acha que as cidades precisam passar por uma “reconstrução” tanto urbana, quanto na forma de vida das pessoas, como na ética: “É preciso recriar esperança, igualdade e oportunidade para todos”.
Há muitos anos, quando morava no Rio de Janeiro, me dei conta das centenas de pessoas que interrompiam nosso happy hauer ou aproveitavam a parada no trânsito para oferecer alguma quinquilharia ou pedir uma esmola. O número de pedintes nas ruas triplicava. Senti que aquilo não ia acabar bem. É verdade que o samba e o futebol pareciam manter aquelas almas afligidas por tantas carências em paz, mas os poetas já percebiam que essa desigualdade estava alimentando ressentimentos. Como diz este samba:
Lata d’água na cabeça
Lá vai Maria, lá vai Maria
Sobe o morro e não se cansa
Pela mão leva a criança,
Lá vai Maria.
Maria lava roupa lá no alto,
lutando pelo pão de cada dia,
sonhando com a vida no asfalto
que acaba onde o morro principia.
O urbanista Davis insiste que precisa acontecer uma “grande transferência de recursos de uma parte da sociedade para outra”. Uma consciência socialista pode ser uma solução, outra parece ser a que Lula e outros presidentes sul-americanos têm feito: complementar a renda dos mais pobres, além de ser dado mais disponibilidade de estudo, projetos culturais e esportes para todos. Desta forma, havendo mais equilíbrio entre as classes dentro de uma cidade os conflitos e o crime diminuiriam.
Davis também chama atenção para as vantagens de ser morar em uma grande comunidade: “Cidades são capazes de fazer algo quase milagroso, que é criar luxos públicos. Que magnata pode ter uma biblioteca do porte da Biblioteca Nacional ou um espaço público como uma praia (como Copacabana ou a Barra) ou uma grande piscina pública (como o Parque Aquático, de Volta Redonda)”.
E ensina que o governo precisa educar maciçamente o povo para aprender a zelar pelo entorno de sua casa mantendo limpos e bem cuidados os rios, as ruas e as praças públicas. Respeito pelo direito dos outros no trânsito e nas relações comerciais é fundamental para a convivência pacífica. Tudo que se faz tem de ser bom para ambas as partes. E para os criminosos natos é preciso uma vigilância e punição rigorosas. Assim se pode viver bem numa cidade.
Assim, é preciso ter esta grande mudança em mente: O espaço cada vez mais exíguo entre as pessoas só vai aumentar, então precisamos nos moldar a isto e nos comportarmos e nos prepararmos para tudo que vai significar em termos de mudanças e oportunidades.

sábado, 1 de setembro de 2007

O subprime e as vantagens indevidas


Lendo a comentarista de Economia de O Globo, Míriam Leitão, falando a respeito da crise financeira da moda, os financiamentos imobiliários nos EUA, o subpirme, me veio a vontade de escrever sobre uma norma que tem norteado minha vida, às vezes.
A Contabilidade, ciência exata baseada na Matemática, fez milagres na Economia que, dizem alguns entendidos, deixaram as próximas gerações numa corda bamba.
Na antiguidade os ativos eram bens físicos que qualquer humano conseguia produzir ou criar: saco de milho, vasilha, carneiro, arado, cavalo, vestimenta, etc.
No sistema de escambo ia o carneiro vinha uma mesa, o fazendeiro fazia uma troca com o marceneiro e cada um continuava com o mesmo número de ativos.
Mas quando o fazendeiro precisava de uma roupa e o trigo só seria colhido dentro de alguns meses e ele conseguia um crédito com o costureiro, vinha túnica e o saco de trigo ficava prometido. Os ativos continuavam iguais até que um artesão mais sabido descobriu outro ativo, o juro. O trigo sendo entregue depois a roupa custava 10% mais. O tempo de espera era um outro bem.
Quando os senhores feudais criaram as moedas a economia deu um salto, duplicou. Eles precisavam pagar por outro ativo, o serviço, o trabalho despendido por um soldado, por um carpinteiro, um cavalariço ou outro qualquer profissional. O dinheiro do fidalgo era bem recebido porque tinha respaldo: suas terras, seus castelos e até seu título. Ativos físicos e de honra.
O trabalho, a arte, aptidão agora valia bens, eram ativos abstratos que geravam ativos físicos.
Depois surgiu o sistema bancário e a economia deu outro salto, multiplicaram-se os ativos. O granjeiro vendia alguns patos e botava o dinheiro no banco. Ele tinha esse ativo lá guardado para a hora que precisasse. Mas o banqueiro pegava seu dinheiro e emprestava ao artesão de couro para comprar material para os trabalhos que ia confeccionar. O mesmo virava um outro ativo. A economia dobrou de tamanho. O ser humano prosperava.
Mas, às vezes, o crédito ou o próprio dinheiro falhavam. A safra fracassava e não tinha trigo para entregar, ou o senhor feudal era derrotado e um rival assumia toda sua herança e não honrava o valor das moedas cunhadas pelo senhor anterior, ou o artesão de couro pagava e não recebia sua mercadoria ou era roubado. Muitos ativos viravam pó.
Surgiram em boa hora as companhias de seguro. O proprietário de um ativo pagava um dízimo mensal para protegê-lo e o bem estava segurado: a safra a ser colhida, o rebanho, o estoque de mercadoria e até o dinheiro no banco.
A humanidade juntava bens tangíveis e imateriais que lhe davam mais conforto durante a vida ativa e até um repouso na velhice.
Mas sempre que nestes negócios não se jogava limpo, com transparência como se diz agora, os bens ficavam sem nenhuma segurança, porque a honra e a justiça ainda são os maiores valores, mesmo que no desenrolar da vida não pareça.
É o que a Mirian comentava sobre os empréstimos subprime, com juros mais caros. O que encarecia o empréstimo era a falta de garantias dos tomadores: imigrantes ilegais que não trabalham com carteira assinada ou famílias que não tinham um rendimento compatível com as normas bancárias. E aceitavam os juros mais altos porque não tinham os meios que as outras famílias possuíam. Se alguma coisa desandava, sem garantias, só restava às financeiras tomar o imóvel e revendê-lo. Mas como o juro era alto, a venda do imóvel não cobria o débito e – coisa rara – sobrava para o banqueiro à perda de ativos.
Não é bem assim, como tudo neste mundo está interligado – e não estamos falando de física quântica – o banqueiro tinha repassado o valor do financiamento para um banco que queria trocar seu dinheiro por um ativo que rendesse um juro melhor e quando o comprador do imóvel não pagava e a casa era revendida por um valor menor, os depósitos bancários sumiam. Não some o dinheiro sagrado do banqueiro, mas o suado depósito que a costureira e o pedreiro colocaram lá. O subprime promete arrancar os ativos de muita gente.
Assim, temos de ficar atentos aos caminhos do nosso dinheirinho. Todo cuidado é pouco. A aventura é um perigo, a cobiça continua merecendo punição. Ou como dizia o poeta: “São demais os perigos desta vida”; ou segundo o sabido colunista social Ibrahim Sued avisava: “Olho vivo que cavalo não sobe escada”.

terça-feira, 28 de agosto de 2007


Absalão
Acabei de ler um livro, Absalão, Absalão, do escritor norte-americano William Faulkner (1897-1962). Quem conhece um bocado da Bíblia sabe da história de David e seu filho mais bonito, Absalão. É um velho drama que acompanha o ser humano, um ressentimento recôndito que cada homem tem por aquele que emprenhou a sua mãe e por meio dela transmitiu à outro humano suas características preservando sua imagem. Parente de outra tragédia que causa terríveis efeitos na sociedade, o pai que destrói a sua prole para salvar a sua vida, seus ideais e suas ambições.
O livro é difícil de ler porque o autor cria em torno do enredo um labirinto de acontecimentos que aparentemente só serve para explicar como o narrador ficou sabendo daquela história. Tirando este roupagem pesada surge uma história que se repete bem mais do que se pensa. Um garoto pobre, numa família grande, zanzando pelas ruas sem o que fazer se deparou com uma cena que o marcou pra toda a vida: um fazendeiro, sentado em sua varanda e servido por um negro de terno que tanto lhe trazia uma bebida gelada, quanto lhe abanava do calor e até tirava e colocava o seu sapato. Para um garoto que nunca tinha sorvido uma laranjada gelada e nem mesmo tinha um sapato pra calçar, ver alguém fazer essas pequenas necessidades para outro lhe botou na cabeça duas coisas: precisava ser dono de terras, de uma bela casa e de vários escravos; e tinha de se manter completamente distante da raça negra, não podia de modo algum misturar seu sangue com o deles. E como os adeptos do Segredo dizem hoje: seu desejo se tornou uma ordem para o Universo que cooperou para ele conseguir tudo o que queria, mesmo passando por cima de outros, da ética e das leis.
Então, tudo começou a conspirar contra ele: teve um filho com uma mulher que descobriu ser mulata, abandonou-a e ao filho; a mulher que escolheu para casar, só para ganhar um status na sociedade, foi sofrendo sem amor até a morte; e os filhos, um casal, acabaram se envolvendo com seu filho mulato que além de grande amigo do rapaz marcou casamento com a moça, sua meia irmã. E o homem, o David, que na história se chama Sutpen, decide jogar os filhos entregues a própria sorte para salvar seu sonho de ser um homem honrado, superior e que tinha empregados para lhe fazer a menor vontade. Acabou morto com uma machadada.
Mas no decorrer da narrativa Faulkner coloca pensamentos soberbos como esse sobre uma amizade: “Por isso não tinha a mínima importância qual dos dois estava falando, pois não era apenas a conversa que clareava tudo, que possibilitava a comunicação, mas um feliz casamento entre falar e ouvir, onde cada um, diante da necessidade, perdoava, tolerava e esquecia a falta do outro”. Ou defendendo a importância de levar o estudo até a universidade: “A cultura que o equipararia e poliria para a posição que ele queria alcançar na vida, como qualquer homem, ele poderia obter em qualquer lugar, até na sua biblioteca – se tivesse a vontade necessária -, mas há alguma coisa, uma certa qualidade na cultura que somente a vida monástica de uma universidade poderia lhe dar”. E o terrível pensamento que pode passar na cabeça de um filho que foi menosprezado pelo pai: “Como pôde ele ter permissão de morrer sem ter de admitir que estava errado e sofrer e se arrepender disso”.
Demorou a leitura deste livro grosso, mas me distraiu, ajudou a passar o tempo e vi certos aspectos da vida sobre um ângulo novo pra mim nos meus 63 anos.
Agora vou começar a ler cinco livros da autora Jean M Auel, romances sobre o homem primitivo, no Neolítico. Me amarro em ler sobre as dificuldades que os homens venceram naquela época.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

AFRO-BRASILEIROS

Quando li pela primeira vez os argumentos de alguns estudiosos de que as quotas para os negros nas universidades criaria uma perigosa descriminação em nosso país que sempre foi elogiado por sua integração racial não percebi como isto podia acontecer e aceitei a nova lei como um avanço para o nosso povo. Leio com mais atenção o que eles dizem: “Quando o setor público começa a discriminar, ainda que ‘positivamente’, em nome da raça ou da cultura; e, pior, quando o governo começa a resolver quem pertence ou não pertence a determinado grupo, e associar a isto benefícios e privilégios, ainda que com as melhores intenções, as portas se abrem para reforçar o preconceito e os conflitos étnicos, resultando em problemas potencialmente mais graves do que os que se pretende resolver. No Brasil, a maior parte da população brasileira é racialmente mista, e a grande maioria se recusa a ser classificada racialmente. Quem seriam os negros? Os cinco por cento que se declaram como pretos nas estatísticas do IBGE?”.
www.schwartzman.org.br/simon/identidade.htm
Ainda continuo achando que para se vencer a inércia dos números que afirmam que os brasileiros de cor de pele mais escura tem menos chances na vida – menos educação, empregos piores, salários inferiores e péssimos níveis de moradia – é preciso uma lei contundente e até mesmo discriminatória. Mas agora li outro aspecto que me inquietou. São palavras do professor de literatura da UFMG, Eduardo A Duarte: “A literatura afro-brasileira é um ramo dentro e fora da literatura brasileira, um ramo étnico... Não deixa de ser brasileira, é feita por brasileiros, mas que fazem questão de assinalar a diferença étnica. Uma visão de mundo identificada à africanidade, algo que uma pessoa que não é afro-brasileira não alcança”.
Estes dias, professores divulgaram um estudo do DNA dos brasileiros: “Nossos dados sugerem que no Brasil, no plano individual, a cor determinada por avaliação física é um fraco fator de predição de ancestralidade genômica africana estimada por marcadores moleculares. Se uma mulher branca tem um filho com um homem negro, por exemplo, a criança pode herdar do pai os genes associados com resistência à malária e da mãe os genes que contribuem para a conformação do nariz. Seria ‘africano’ do ponto de vista da doença e ‘europeu’ do ponto de vista nasal. De certo modo, foi o que se encontrou numa amostra da população rural de Minas Gerais que participa de um estudo de saúde da UFMG, o Projeto Queixadinha. Nem todo negro no Brasil é geneticamente um afrodescendente, e nem todo afro-brasileiro é necessariamente um negro. Assim se pode resumir a pesquisa”.
Nosso grande Machado de Assis, mulato, escrevia como “autor inglês” e o poeta negro Cruz e Souza escreveu Broqueis como um ser humano e sem dar nenhuma pista de que via o mundo pelo ponto de vista de um negro que sempre foi discriminado. Só mais velho, em Emparedado ele deixa transparecer em seu texto o racismo que havia no fim do século 19. Isto me faz pensar se nossos servidores negros e nossos amigos de pele mais escura (com quem convivemos tão naturalmente) no fundo do coração não estão escondendo uma profunda frustração com a vida que tem e não nos deixam pressentir isto cantando um samba alegre para nos divertir e sorrindo com seus dentes mais brancos que os nossos.
Então, que terrível país é este no qual uma pessoa discrimina os amigos e vizinhos por sua cor de pele mais escura e eles nos discriminam como branco-azedos sem samba no pé e sem alegria de viver. Assim, quotas a torto e direito não vão piorar mais as coisas.

sábado, 21 de abril de 2007


ALAIN TOURAINE 1925- Sociólogo francês que leciona na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris é outro pensador obcecado com a influência do Islamismo no mundo do século 21. Lembra do que o papa Bento XVI falou em uma conferência sobre o pensamento do Islã? Para não dizer o que pensa ele contou uma discussão entre um antecessor e o imperador de Bizâncio: “A religião de Maomé prega a intolerância com outras crenças e o confronto violento para resolver qualquer questão com os outros povos”. Foi uma barulheira tremenda no mundo todo. Mas o professor Alain se pergunta a mesma coisa: “O mudo islâmico, dentro do seu conjunto, e em suas várias partes, responde à modernidade, reconhecendo os direitos pessoais, ou essa é uma vasta região onde esses critérios não são aplicáveis e, por conseqüência, não está disposta a se comunicar com outras partes do mundo a não ser pela guerra e pela rejeição a populações que lhe parecem infiéis à mensagem divina?”.
Ele até contemporiza lembrando que os avanços da humanidade às vezes demoravam a ser absorvido por certos povos. Relembra que mesmo no meio da avalanche de idéias e sentimentos que atropelaram o ser humano no início do Iluminismo lugares como o Brasil ainda dependiam do trabalho escravo – até hoje os jornais, vez por outra, noticiam que a polícia desbaratou o trabalho escravo em uma fazenda onde um proprietário e seus capatazes não aprenderam nada sobre democracia e direitos humanos. Então, será que os árabes estão só um pouco atrasados e logo vão aprender a respeitar a crença dos outros e tentar todos os meios para resolver pendências políticas em paz? Ou a intolerância é uma parte irremovível da cultura árabe?
Touraine reconhece que boa parte do mundo árabe vem se esforçando para se adaptar a modernidade e aos conceitos de direitos individuais. Porém, ele vê entre eles um comportamento antigo e tribal: o direito comunitário, profundamente entranhado em seus corações e o meio que usaram para sobrevier como povo as conquistas dos ocidentais. Aí ele percebe um grande perigo. Enquanto alguns sociólogos entendem que a imigração de muçulmanos para os países da Europa e da América vá ocidentalizá-los e fazê-los adotar normas jurídicas e morais do Ocidente e com isso, servindo como exemplo para os que ficaram no Oriente, modernizar o Islã, Alain acha que eles acabarão servindo de cabeça-de-ponte em meio à população do país que os acolheu e conseguirão influenciar os jovens sem perspectivas e ansiosos para acreditar em alguma coisa tornando-os terroristas que só vão ver a violência como meio de mudar ou destruir a sociedade que tirou suas esperanças.
Assim, Touraine, teme: “Se os muçulmanos continuarem recusando a existência de princípios universais e rejeitando a idéia de modernidade cuja essência é reconhecer a presença de princípios universais nos indivíduos particulares, não existirá mais comunicação possível entre os atores cujas culturas são completamente diferentes”. Ele não aceita o argumento idiota de que um árabe não vai aceitar a modernidade porque ela foi desenvolvida no Ocidente: “A Matemática e a Astrologia foram desenvolvidas em certos países e em determinadas épocas (como o Egito e a Mesopotâmia antigos), o que não impediu de serem aceitos pelo mundo inteiro. Assim, deve-se insistir na existência de princípios que, elaborados em uma parte do mundo e em uma época precisa, devem ser reconhecidos como valores universais pelo conjunto dos países”. Mesmo tendo lutado para se verem livres da dominação árabe, os europeus – especialmente os da península Ibérica – são agradecidos até hoje pela cultura que os árabes adicionaram a seu modo de viver.
Dificilmente, no Brasil, havemos de enfrentar alguma luta entre evangélicos fanáticos e católicos ou espíritas, então é torcer para que esses nossos irmãos árabes aprendam a tolerância para não levar-nos todos de roldão em uma crise econômica ou militar: “Nenhuma sociedade tem o monopólio dos grandes princípios da modernidade, e o grau de acirramento dos conflitos fundamentais, sejam religiosos e culturais, ou simplesmente econômicos, obriga-nos a buscar negociações em níveis mais aprofundados e elevados”.
Coluna de Merval Pereira em O Globo, 14/04/2007

sexta-feira, 13 de abril de 2007


JEAN BAUDRILLARD 1929-2007 Sociólogo e filósofo francês que foi marcado por seus colegas como um niilista por uns e como o “pai do pensamento moderno” por outros, em mais de uma centena de livros foi um crítico feroz da cultura de consumo. Quando vamos ao shopping de uma metrópole, faiscante em centenas de lojas exibindo tudo o que a inventividade humana conseguiu produzir, às vezes nos pegamos pensando se aquilo é a vida real, a função maior do ser humano, ou é apenas um mundo virtual, como no filme Matrix que se inspirou no livro de Simulacros e Simulações, de Baudrillard.
O filósofo considerava a todos nós como cúmplices da situação em que vivemos, desta hiper-realidade que ele chama de “assassinato do real em que a clonagem de cultura e idéias pode configurar o fim de um dos traços fundamentais do homem: a morte”. Ele entendia que o espetáculo feérico mostrado pela mídia, igual a um carrossel enlouquecido, tira de nós a oportunidade de pensar e buscar mudanças para o mundo “neutralizando e anulado uns aos outros pelo excesso e pelo vazio de sentido”. Sua descrença completa, a negação veemente de valores aproveitáveis na sociedade humana, não era pregação de uma atitude de impotência, mas a celebração catastrófica de que precisamos mudar o rumo da humanidade. “O social funciona sobre a base da disfunção do acidente, do catastrófico e do irreal”.
Talvez por isso Baudrillard sentia um grande fascínio pelo mal, ainda que para entender sua força e melhor combatê-la. “Não se trata de ser contra a erradicação do mal. É preciso abandonar o idealismo”. Não acreditava nas visões de um mundo utópico nem na fé dos religiosos de que um dia a Terra será dos mansos e pacíficos: “Não existe este ponto ideal e perfeito, esse ponto de chegada para a história. Não há o bem sem o mal. Um está ao lado do outro. As coisas são reversíveis: são boas e se tornam más ou são más e se tornam boas”. Sua maneira arguta de ver o ser humano na história lhe dizia que existem forças naturais e sociais indomáveis: “Quero dizer que as coisas que são reprimidas não desaparecem, mas ressurgem adiante com maior força, tornando-se incontroláveis. Pensar a sociedade contemporânea consiste em pensar a produção do mal como uma energia incontrolável”. Assim, aquietemo-nos. Se houve um Nero que empalava os inocentes, um Átila que destroçava tudo que se interpunha às suas hordas, um Hitler que jogou milhões em fornos crematórios e um George W. Bush que acha mais importante que o imperialismo ianque continue faturando e o mundo que se exploda, ainda haverá muitos outros antiCristos.
Por tudo isto é que o mundo consegue inverter belos princípios e continuar matando milhões de humanos, irmãos da nossa espécie, de fome e doenças. Veja só: O ponto fraco do gigante norte-americano é seu desequilíbrio crônico das contas externas, sempre gasta muito mais do que fatura. E olha que vende horrores! No ano passado os EUA gastou quase 1 trilhão de dólares a mais do que produziu. Sabe quem financiou este estouro de caixa? Os países em desenvolvimento. A China conseguiu um superávit de 7% que aplicou em grande parte em papéis norte-americanos. E nós que já temos US$100 bilhões ‘malocados’ como reservas estratégicas! Gente, quanto esforço, suor e lágrimas, aplicados em bom papel impresso pelo Banco Central de GW Bush! Marx errou demais ao teorizar que o Capital devia fluir das economias desenvolvidas, dotadas de imensa capacidade de poupar e que já teriam explorado grande parte das suas oportunidades de investimento, para as economias em desenvolvimento. É, afinal, mais um fruto do nefasto mal que é inerente a raça humana.
O Globo, 10/03/2007, Opinião e Prosa&Verso

sexta-feira, 6 de abril de 2007

O Valor da Leitura e do Estudo




O que pode ter em comum o Dalai Lama com o ex-prefeito de Bogotá? Vou te contar. O líder espiritual dos tibetanos, Tensyn Gyatzo, vive no exílio e faz conferências em todos os países pedindo apoio para que a China reconheça a cultura, a religião e as tradições do povo que vive no alto do Himalaia. Mas ele fala de outra preocupação que o aflige: “Nosso desafio é preservar os valores morais, a espiritualidade entre os jovens. Venerar imagens não significa espiritualidade. É preciso ler mais, o importante é aprender sempre, ler cada vez mais os textos budistas”.
É lógico que como pastor religioso ele prega a devoção nos jovens, mas veja bem como ele insiste na leitura. Precisamos instar com nossos filhos, sem esmorecer, para que sentem pra ler. Estão no computador, diga alguma coisa positiva para pegarem um livro. Estão vendo TV, fale alguma coisa otimista sobre um livro. É claro que o pai e a mãe também precisam ler algum livro vez por outra. E a leitura tem um efeito secundário sobre o jovem: “Temos que fazer algo antes que seja tarde. Cada vez mais os jovens só se interessam por ganhar dinheiro. Muitos estão perdendo a espiritualidade”.
E o que pensa o Sr. Henrique Peñalosa, um ex-prefeito da capital da Colômbia? Quando três governadores brasileiros o visitaram falou sobre as ações que conseguiram baixar muito o crime naquela cidade de morros e favelas: “Nós decidimos não investir num plano de fazer oito auto-estradas na cidade, que custaria US$2,2 bilhões, e executar um projeto de ônibus articulado por que só 15% das pessoas têm carro. Decidimos investir em transporte público. Com a economia que fizemos pudemos construir escolas de qualidade, bibliotecas, parques, ciclovias e calçadões. Nós demos a cidade aos pobre, que não tinham como usá-la”. Ele contou que a polícia também se tornou mais comum nas ruas, mas o respeito à cidadania com a melhoria dos serviços públicos – com principal foco na leitura e numa educação eficiente – foi o fator de sucesso.
Do outro lado do mundo vem uma constatação do valor do investimento no ser humano. Na China o fator principal para o impetuoso crescimento econômico foi resumido em quatro pontos pelo economista Ilian Mihov: “Para criar um milagre, para crescer realmente rápido, é preciso investimento de pelo menos 25% do PIB. O crescimento não vem com a instalação de grandes fábricas e companhias multinacionais. O crescimento ocorre quando a população local se interessa pelo estudo, cria inovações, monta seus próprios negócios e gera empregos”.
Tenho 5 filhos, os netos vão para 6 e as noras e genros são 4. Todo este time precisa ser lembrado que a situação vai ficar cada vez mais difícil, tanto na situação ecológica quanto na econômica. O que vai “salvar”, selecionar, os melhores indivíduos será a instrução que acumularem, os conceitos éticos e humanísticos bem encravados em seus corações e uma espiritualidade que não é a mesma coisa que religiosidade. Então, nós, os mais velhos, precisamos continuar como um farol para os mais jovens dando exemplo, conselhos e incentivo positivo que não pode cessar nunca.
O Globo, 18/03/2007