terça-feira, 28 de agosto de 2007


Absalão
Acabei de ler um livro, Absalão, Absalão, do escritor norte-americano William Faulkner (1897-1962). Quem conhece um bocado da Bíblia sabe da história de David e seu filho mais bonito, Absalão. É um velho drama que acompanha o ser humano, um ressentimento recôndito que cada homem tem por aquele que emprenhou a sua mãe e por meio dela transmitiu à outro humano suas características preservando sua imagem. Parente de outra tragédia que causa terríveis efeitos na sociedade, o pai que destrói a sua prole para salvar a sua vida, seus ideais e suas ambições.
O livro é difícil de ler porque o autor cria em torno do enredo um labirinto de acontecimentos que aparentemente só serve para explicar como o narrador ficou sabendo daquela história. Tirando este roupagem pesada surge uma história que se repete bem mais do que se pensa. Um garoto pobre, numa família grande, zanzando pelas ruas sem o que fazer se deparou com uma cena que o marcou pra toda a vida: um fazendeiro, sentado em sua varanda e servido por um negro de terno que tanto lhe trazia uma bebida gelada, quanto lhe abanava do calor e até tirava e colocava o seu sapato. Para um garoto que nunca tinha sorvido uma laranjada gelada e nem mesmo tinha um sapato pra calçar, ver alguém fazer essas pequenas necessidades para outro lhe botou na cabeça duas coisas: precisava ser dono de terras, de uma bela casa e de vários escravos; e tinha de se manter completamente distante da raça negra, não podia de modo algum misturar seu sangue com o deles. E como os adeptos do Segredo dizem hoje: seu desejo se tornou uma ordem para o Universo que cooperou para ele conseguir tudo o que queria, mesmo passando por cima de outros, da ética e das leis.
Então, tudo começou a conspirar contra ele: teve um filho com uma mulher que descobriu ser mulata, abandonou-a e ao filho; a mulher que escolheu para casar, só para ganhar um status na sociedade, foi sofrendo sem amor até a morte; e os filhos, um casal, acabaram se envolvendo com seu filho mulato que além de grande amigo do rapaz marcou casamento com a moça, sua meia irmã. E o homem, o David, que na história se chama Sutpen, decide jogar os filhos entregues a própria sorte para salvar seu sonho de ser um homem honrado, superior e que tinha empregados para lhe fazer a menor vontade. Acabou morto com uma machadada.
Mas no decorrer da narrativa Faulkner coloca pensamentos soberbos como esse sobre uma amizade: “Por isso não tinha a mínima importância qual dos dois estava falando, pois não era apenas a conversa que clareava tudo, que possibilitava a comunicação, mas um feliz casamento entre falar e ouvir, onde cada um, diante da necessidade, perdoava, tolerava e esquecia a falta do outro”. Ou defendendo a importância de levar o estudo até a universidade: “A cultura que o equipararia e poliria para a posição que ele queria alcançar na vida, como qualquer homem, ele poderia obter em qualquer lugar, até na sua biblioteca – se tivesse a vontade necessária -, mas há alguma coisa, uma certa qualidade na cultura que somente a vida monástica de uma universidade poderia lhe dar”. E o terrível pensamento que pode passar na cabeça de um filho que foi menosprezado pelo pai: “Como pôde ele ter permissão de morrer sem ter de admitir que estava errado e sofrer e se arrepender disso”.
Demorou a leitura deste livro grosso, mas me distraiu, ajudou a passar o tempo e vi certos aspectos da vida sobre um ângulo novo pra mim nos meus 63 anos.
Agora vou começar a ler cinco livros da autora Jean M Auel, romances sobre o homem primitivo, no Neolítico. Me amarro em ler sobre as dificuldades que os homens venceram naquela época.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

AFRO-BRASILEIROS

Quando li pela primeira vez os argumentos de alguns estudiosos de que as quotas para os negros nas universidades criaria uma perigosa descriminação em nosso país que sempre foi elogiado por sua integração racial não percebi como isto podia acontecer e aceitei a nova lei como um avanço para o nosso povo. Leio com mais atenção o que eles dizem: “Quando o setor público começa a discriminar, ainda que ‘positivamente’, em nome da raça ou da cultura; e, pior, quando o governo começa a resolver quem pertence ou não pertence a determinado grupo, e associar a isto benefícios e privilégios, ainda que com as melhores intenções, as portas se abrem para reforçar o preconceito e os conflitos étnicos, resultando em problemas potencialmente mais graves do que os que se pretende resolver. No Brasil, a maior parte da população brasileira é racialmente mista, e a grande maioria se recusa a ser classificada racialmente. Quem seriam os negros? Os cinco por cento que se declaram como pretos nas estatísticas do IBGE?”.
www.schwartzman.org.br/simon/identidade.htm
Ainda continuo achando que para se vencer a inércia dos números que afirmam que os brasileiros de cor de pele mais escura tem menos chances na vida – menos educação, empregos piores, salários inferiores e péssimos níveis de moradia – é preciso uma lei contundente e até mesmo discriminatória. Mas agora li outro aspecto que me inquietou. São palavras do professor de literatura da UFMG, Eduardo A Duarte: “A literatura afro-brasileira é um ramo dentro e fora da literatura brasileira, um ramo étnico... Não deixa de ser brasileira, é feita por brasileiros, mas que fazem questão de assinalar a diferença étnica. Uma visão de mundo identificada à africanidade, algo que uma pessoa que não é afro-brasileira não alcança”.
Estes dias, professores divulgaram um estudo do DNA dos brasileiros: “Nossos dados sugerem que no Brasil, no plano individual, a cor determinada por avaliação física é um fraco fator de predição de ancestralidade genômica africana estimada por marcadores moleculares. Se uma mulher branca tem um filho com um homem negro, por exemplo, a criança pode herdar do pai os genes associados com resistência à malária e da mãe os genes que contribuem para a conformação do nariz. Seria ‘africano’ do ponto de vista da doença e ‘europeu’ do ponto de vista nasal. De certo modo, foi o que se encontrou numa amostra da população rural de Minas Gerais que participa de um estudo de saúde da UFMG, o Projeto Queixadinha. Nem todo negro no Brasil é geneticamente um afrodescendente, e nem todo afro-brasileiro é necessariamente um negro. Assim se pode resumir a pesquisa”.
Nosso grande Machado de Assis, mulato, escrevia como “autor inglês” e o poeta negro Cruz e Souza escreveu Broqueis como um ser humano e sem dar nenhuma pista de que via o mundo pelo ponto de vista de um negro que sempre foi discriminado. Só mais velho, em Emparedado ele deixa transparecer em seu texto o racismo que havia no fim do século 19. Isto me faz pensar se nossos servidores negros e nossos amigos de pele mais escura (com quem convivemos tão naturalmente) no fundo do coração não estão escondendo uma profunda frustração com a vida que tem e não nos deixam pressentir isto cantando um samba alegre para nos divertir e sorrindo com seus dentes mais brancos que os nossos.
Então, que terrível país é este no qual uma pessoa discrimina os amigos e vizinhos por sua cor de pele mais escura e eles nos discriminam como branco-azedos sem samba no pé e sem alegria de viver. Assim, quotas a torto e direito não vão piorar mais as coisas.

sábado, 21 de abril de 2007


ALAIN TOURAINE 1925- Sociólogo francês que leciona na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris é outro pensador obcecado com a influência do Islamismo no mundo do século 21. Lembra do que o papa Bento XVI falou em uma conferência sobre o pensamento do Islã? Para não dizer o que pensa ele contou uma discussão entre um antecessor e o imperador de Bizâncio: “A religião de Maomé prega a intolerância com outras crenças e o confronto violento para resolver qualquer questão com os outros povos”. Foi uma barulheira tremenda no mundo todo. Mas o professor Alain se pergunta a mesma coisa: “O mudo islâmico, dentro do seu conjunto, e em suas várias partes, responde à modernidade, reconhecendo os direitos pessoais, ou essa é uma vasta região onde esses critérios não são aplicáveis e, por conseqüência, não está disposta a se comunicar com outras partes do mundo a não ser pela guerra e pela rejeição a populações que lhe parecem infiéis à mensagem divina?”.
Ele até contemporiza lembrando que os avanços da humanidade às vezes demoravam a ser absorvido por certos povos. Relembra que mesmo no meio da avalanche de idéias e sentimentos que atropelaram o ser humano no início do Iluminismo lugares como o Brasil ainda dependiam do trabalho escravo – até hoje os jornais, vez por outra, noticiam que a polícia desbaratou o trabalho escravo em uma fazenda onde um proprietário e seus capatazes não aprenderam nada sobre democracia e direitos humanos. Então, será que os árabes estão só um pouco atrasados e logo vão aprender a respeitar a crença dos outros e tentar todos os meios para resolver pendências políticas em paz? Ou a intolerância é uma parte irremovível da cultura árabe?
Touraine reconhece que boa parte do mundo árabe vem se esforçando para se adaptar a modernidade e aos conceitos de direitos individuais. Porém, ele vê entre eles um comportamento antigo e tribal: o direito comunitário, profundamente entranhado em seus corações e o meio que usaram para sobrevier como povo as conquistas dos ocidentais. Aí ele percebe um grande perigo. Enquanto alguns sociólogos entendem que a imigração de muçulmanos para os países da Europa e da América vá ocidentalizá-los e fazê-los adotar normas jurídicas e morais do Ocidente e com isso, servindo como exemplo para os que ficaram no Oriente, modernizar o Islã, Alain acha que eles acabarão servindo de cabeça-de-ponte em meio à população do país que os acolheu e conseguirão influenciar os jovens sem perspectivas e ansiosos para acreditar em alguma coisa tornando-os terroristas que só vão ver a violência como meio de mudar ou destruir a sociedade que tirou suas esperanças.
Assim, Touraine, teme: “Se os muçulmanos continuarem recusando a existência de princípios universais e rejeitando a idéia de modernidade cuja essência é reconhecer a presença de princípios universais nos indivíduos particulares, não existirá mais comunicação possível entre os atores cujas culturas são completamente diferentes”. Ele não aceita o argumento idiota de que um árabe não vai aceitar a modernidade porque ela foi desenvolvida no Ocidente: “A Matemática e a Astrologia foram desenvolvidas em certos países e em determinadas épocas (como o Egito e a Mesopotâmia antigos), o que não impediu de serem aceitos pelo mundo inteiro. Assim, deve-se insistir na existência de princípios que, elaborados em uma parte do mundo e em uma época precisa, devem ser reconhecidos como valores universais pelo conjunto dos países”. Mesmo tendo lutado para se verem livres da dominação árabe, os europeus – especialmente os da península Ibérica – são agradecidos até hoje pela cultura que os árabes adicionaram a seu modo de viver.
Dificilmente, no Brasil, havemos de enfrentar alguma luta entre evangélicos fanáticos e católicos ou espíritas, então é torcer para que esses nossos irmãos árabes aprendam a tolerância para não levar-nos todos de roldão em uma crise econômica ou militar: “Nenhuma sociedade tem o monopólio dos grandes princípios da modernidade, e o grau de acirramento dos conflitos fundamentais, sejam religiosos e culturais, ou simplesmente econômicos, obriga-nos a buscar negociações em níveis mais aprofundados e elevados”.
Coluna de Merval Pereira em O Globo, 14/04/2007

sexta-feira, 13 de abril de 2007


JEAN BAUDRILLARD 1929-2007 Sociólogo e filósofo francês que foi marcado por seus colegas como um niilista por uns e como o “pai do pensamento moderno” por outros, em mais de uma centena de livros foi um crítico feroz da cultura de consumo. Quando vamos ao shopping de uma metrópole, faiscante em centenas de lojas exibindo tudo o que a inventividade humana conseguiu produzir, às vezes nos pegamos pensando se aquilo é a vida real, a função maior do ser humano, ou é apenas um mundo virtual, como no filme Matrix que se inspirou no livro de Simulacros e Simulações, de Baudrillard.
O filósofo considerava a todos nós como cúmplices da situação em que vivemos, desta hiper-realidade que ele chama de “assassinato do real em que a clonagem de cultura e idéias pode configurar o fim de um dos traços fundamentais do homem: a morte”. Ele entendia que o espetáculo feérico mostrado pela mídia, igual a um carrossel enlouquecido, tira de nós a oportunidade de pensar e buscar mudanças para o mundo “neutralizando e anulado uns aos outros pelo excesso e pelo vazio de sentido”. Sua descrença completa, a negação veemente de valores aproveitáveis na sociedade humana, não era pregação de uma atitude de impotência, mas a celebração catastrófica de que precisamos mudar o rumo da humanidade. “O social funciona sobre a base da disfunção do acidente, do catastrófico e do irreal”.
Talvez por isso Baudrillard sentia um grande fascínio pelo mal, ainda que para entender sua força e melhor combatê-la. “Não se trata de ser contra a erradicação do mal. É preciso abandonar o idealismo”. Não acreditava nas visões de um mundo utópico nem na fé dos religiosos de que um dia a Terra será dos mansos e pacíficos: “Não existe este ponto ideal e perfeito, esse ponto de chegada para a história. Não há o bem sem o mal. Um está ao lado do outro. As coisas são reversíveis: são boas e se tornam más ou são más e se tornam boas”. Sua maneira arguta de ver o ser humano na história lhe dizia que existem forças naturais e sociais indomáveis: “Quero dizer que as coisas que são reprimidas não desaparecem, mas ressurgem adiante com maior força, tornando-se incontroláveis. Pensar a sociedade contemporânea consiste em pensar a produção do mal como uma energia incontrolável”. Assim, aquietemo-nos. Se houve um Nero que empalava os inocentes, um Átila que destroçava tudo que se interpunha às suas hordas, um Hitler que jogou milhões em fornos crematórios e um George W. Bush que acha mais importante que o imperialismo ianque continue faturando e o mundo que se exploda, ainda haverá muitos outros antiCristos.
Por tudo isto é que o mundo consegue inverter belos princípios e continuar matando milhões de humanos, irmãos da nossa espécie, de fome e doenças. Veja só: O ponto fraco do gigante norte-americano é seu desequilíbrio crônico das contas externas, sempre gasta muito mais do que fatura. E olha que vende horrores! No ano passado os EUA gastou quase 1 trilhão de dólares a mais do que produziu. Sabe quem financiou este estouro de caixa? Os países em desenvolvimento. A China conseguiu um superávit de 7% que aplicou em grande parte em papéis norte-americanos. E nós que já temos US$100 bilhões ‘malocados’ como reservas estratégicas! Gente, quanto esforço, suor e lágrimas, aplicados em bom papel impresso pelo Banco Central de GW Bush! Marx errou demais ao teorizar que o Capital devia fluir das economias desenvolvidas, dotadas de imensa capacidade de poupar e que já teriam explorado grande parte das suas oportunidades de investimento, para as economias em desenvolvimento. É, afinal, mais um fruto do nefasto mal que é inerente a raça humana.
O Globo, 10/03/2007, Opinião e Prosa&Verso

sexta-feira, 6 de abril de 2007

O Valor da Leitura e do Estudo




O que pode ter em comum o Dalai Lama com o ex-prefeito de Bogotá? Vou te contar. O líder espiritual dos tibetanos, Tensyn Gyatzo, vive no exílio e faz conferências em todos os países pedindo apoio para que a China reconheça a cultura, a religião e as tradições do povo que vive no alto do Himalaia. Mas ele fala de outra preocupação que o aflige: “Nosso desafio é preservar os valores morais, a espiritualidade entre os jovens. Venerar imagens não significa espiritualidade. É preciso ler mais, o importante é aprender sempre, ler cada vez mais os textos budistas”.
É lógico que como pastor religioso ele prega a devoção nos jovens, mas veja bem como ele insiste na leitura. Precisamos instar com nossos filhos, sem esmorecer, para que sentem pra ler. Estão no computador, diga alguma coisa positiva para pegarem um livro. Estão vendo TV, fale alguma coisa otimista sobre um livro. É claro que o pai e a mãe também precisam ler algum livro vez por outra. E a leitura tem um efeito secundário sobre o jovem: “Temos que fazer algo antes que seja tarde. Cada vez mais os jovens só se interessam por ganhar dinheiro. Muitos estão perdendo a espiritualidade”.
E o que pensa o Sr. Henrique Peñalosa, um ex-prefeito da capital da Colômbia? Quando três governadores brasileiros o visitaram falou sobre as ações que conseguiram baixar muito o crime naquela cidade de morros e favelas: “Nós decidimos não investir num plano de fazer oito auto-estradas na cidade, que custaria US$2,2 bilhões, e executar um projeto de ônibus articulado por que só 15% das pessoas têm carro. Decidimos investir em transporte público. Com a economia que fizemos pudemos construir escolas de qualidade, bibliotecas, parques, ciclovias e calçadões. Nós demos a cidade aos pobre, que não tinham como usá-la”. Ele contou que a polícia também se tornou mais comum nas ruas, mas o respeito à cidadania com a melhoria dos serviços públicos – com principal foco na leitura e numa educação eficiente – foi o fator de sucesso.
Do outro lado do mundo vem uma constatação do valor do investimento no ser humano. Na China o fator principal para o impetuoso crescimento econômico foi resumido em quatro pontos pelo economista Ilian Mihov: “Para criar um milagre, para crescer realmente rápido, é preciso investimento de pelo menos 25% do PIB. O crescimento não vem com a instalação de grandes fábricas e companhias multinacionais. O crescimento ocorre quando a população local se interessa pelo estudo, cria inovações, monta seus próprios negócios e gera empregos”.
Tenho 5 filhos, os netos vão para 6 e as noras e genros são 4. Todo este time precisa ser lembrado que a situação vai ficar cada vez mais difícil, tanto na situação ecológica quanto na econômica. O que vai “salvar”, selecionar, os melhores indivíduos será a instrução que acumularem, os conceitos éticos e humanísticos bem encravados em seus corações e uma espiritualidade que não é a mesma coisa que religiosidade. Então, nós, os mais velhos, precisamos continuar como um farol para os mais jovens dando exemplo, conselhos e incentivo positivo que não pode cessar nunca.
O Globo, 18/03/2007

sábado, 24 de março de 2007


JOHN UPDIKE 1932- Bem que tentei ler um livro dele, mas com frases compridas – a gente esquece do que ele começou a falar antes de chegar ao fim do raciocínio – não consegui. Agora estou lendo uma resenha de seu livro Terrorista sobre um rapaz de 18 anos, norte-americano, que se converte ao islamismo e é convencido – ou se convence – a explodir parte do monumento a Lincoln como um homem-bomba. Numa entrevista Updike segue o pensamento dos intelectuais do momento e que foi resumido muito bem por Garcia Márques: “A descrença é mais resistente que a fé porque é sustentada pelos sentidos”.
Updike avisa uma coisa que já percebi a algum tempo: os jovens podem ser mais cruéis e violentos que um homem da minha geração. “Os jovens têm hoje um modo diferente de encarar a morte, um modo que parece muito estranho para alguém da minha geração”. Eu mesmo tenho muito mais medo de ser assaltado por um homem novo do que por um marginal mais velho. “Não tem respeito pela vida dos outros e nem pela própria vida”.
Sobre o que provoca esta maneira de viver cheia de adrenalina e de outras drogas no cérebro ele dá sua explicação: “O capitalismo produz uma desilusão profunda com o futuro, uma desesperança que se infiltra nos menores gestos cotidianos. Daí o desespero de quem é capaz de pensar-se a si mesmo explodindo pelos ares junto a dezenas de inocentes. Nada vale a pena porque a própria vida não vale a pena ser vivida”.
Tenho o maior desprezo por este modo de vida globalizado de agora. Ontem, estava conversando com um casal amigo sobre como era a CSN há uns 20 anos atrás. Meu concunhado, marido de Lia, minha cunhada mais velha, morreu e deixou-a com duas filhas para criar. Um diretor da companhia, amigo do Tomaz, visitou a viúva e incentivou-a a fazer um exame para entrar na firma. Ela, menina criada no interior de Minas, só tinha uns dois anos de estudo. Como é que passaria numa prova para a enorme CSN? Ele lhe deu as respostas da prova, mandou que ela as decorasse e as escrevesse várias vezes e fosse fazer o exame. Ela passou e trabalhou muitos anos na Cia. Cuidava de plantas, fazia café, conversava sempre a animada com os funcionários de sua área e de alguma forma – como um ser humano valioso que era – contribuiu para o bem estar dos colegas e ajudou a “equipe” a produzir. Mas quando se lê que a Bayer comprou a Schering e vai mandar 6.000 funcionários embora, a gente fica danado da vida com a insensibilidade de uma sociedade que se preocupa mais em proteger o Capital do que as vida humanas.
Então, somos todos – como coniventes nesta safadeza – responsáveis pela violência do mundo. “Não existe para estes jovens qualquer perspectiva de mudar o presente, de transforma o mundo. Então, passa a ser banal pensar em explodir tudo. Qualquer coisa parece ser melhor do que o inferno da vida cotidiana”.Updike fala sobre a violência no Rio de Janeiro que diz ser “um extravasar de ódio, raiva e humilhação” de tantos jovens. “Todo mundo já ouviu falar da explosão de violência nas favelas cariocas, os crimes terrivelmente cruéis no Rio e em São Paulo. E em meio a esta crueldade estão jovens, às vezes adolescentes, que não se detêm diante de nada, que não pensam duas vezes antes de atirar, de explodir tudo”. Ele repete a acusação: “Mas há um sistema econômico cruel que nos atinge a todos, uns mais, a outros menos, mais ainda assim nos atinge a todos”.
Ele fala da distante Depressão, nos anos da década de 1920: “Eu me lembro da sensação de ser pobre. Era um sentimento de revolta. Eu me sentia traído pela vida, impotente para realizar meus sonhos. Imagino que os jovens hoje se sintam assim quando percebem que não terão oportunidades, que o sistema capitalista não vai dar a eles a menor chance de vencer na vida”. Mas existe aí um paradoxo! Ele mesmo, de menino pobre se tornou um dos maiores escritores norte-americanos! Então, será que o problema principal dos jovens não é o que os acometeu sempre, a impaciência?
Prosa&Verso, O Globo 17/03/2007

terça-feira, 13 de março de 2007


FRIEDRICH HOLDERLIN 1770-1843 Poeta, autor de Hiperion este alemão teve o privilégio de disseminar um pensamento que influenciou a vida do povo alemão no início do século XVIII e que foi denominado Idealismo alemão. Naquele momento o ser humano se esforçava para mesclar sua fé nos espíritos e sua crença no absoluto com o racionalismo que lhe era imposto pela ciência e pela relatividade de qualquer verdade diante de outras maneiras de viver que vinham tanto do Oriente quanto do Novo Mundo. Naquele livro, em poesia, ele dizia que “nem nosso saber nem nossa ação alcançarão em qualquer período de nossa existência o ponto em que é abolida toda contradição em que tudo é uno”.
Ele explicava que dentro de nós mesmo somos amparados por crenças e conceitos que nos mantém equilibrados, o problema começa porque temos que interagir com o mundo e precisamos moldar nossa maneira de pensar com as leis naturais que o mundo nos apresenta: “Com freqüência parece-nos que o mundo é tudo e que não somos nada, mas de outras vezes pensamos que somos tudo e que o mundo não é nada”. Já percebeu que quando saímos de casa bem cedo de manhã parece que estamos sozinhos na rua e, de repente, quando surge uma pessoa numa esquina sentimos como se ele estivesse invadindo nosso espaço, como se o mundo todo funcionasse só pra agente. Assim, o Idealismo era um jeito de pensar que ajudava a manter o individualismo das pessoas daquela época. Com certeza isto não serve mais para nós, hoje.
Leia os versos de OUTRORA E HOJE:Meu dia outrora principiava alegre;No entanto à noite eu chorava. Hoje, [ mais velho, Nascem-me em dúvida os dias, masFindam sagrada, serenamente.
www.algumapoesia.com.br/poesia2/poesianet178.htm

ZYGMUNT BAUMAN 1925- Professor emérito de Sociologia na Univ. de Leeds ele estudou as mudanças que levaram o ser humano a este mundo moderno e a era do Consumismo que está colocando em perigo o equilíbrio de nosso planeta e que possibilitou o surgimento da vida aqui. Foi ele que chamou a nossa maneira de viver de fluídica, em contraposição à solidez que buscavam as gerações passadas.
Um tanto pessimista ele ensina que esta liquidez humana atual torna a existência uma sucessão de experiências rápidas e sem profundidade. Assim, parece que Bauman julga nosso tempo como sendo de menor valor do que o dos seus tataravôs. “A vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante”. Ele não pode ter esquecido que foi esta existência de perigo constante que construiu a própria espécie humana! De qualquer forma atesta que em nosso tempo a morte rápida e o reinício se tornou um acontecimento constante e interminável. Em Vidas Desperdiçadas ele diz que “tudo é descartável, substituído, e logo depois substituído de novo, numa sucessão de colapsos”. Mas reconhece que mais uma vez a lei insensível da Seleção natural está moldando um novo homem “com identidade frouxa e desejos extremos que se consideram em casa em muitos lugares”. Decreta que para tais “o importante não é saber quem você é, mas quem você deixou de ser”.
Faz-nos lembrar Picasso desconstruindo a pintura com seu Cubismo e que dizia: “Quando pretendem me classificar em uma categoria, já me transformei, já estou em outra parte”. Assim parece que esta experiência atual que transformou o romântico namoro em um prático “ficar” abre um leque infinito de possibilidades para o ser humano ao passo que estilhaça as certezas e os antigos dogmas. E não foi sempre assim que evoluímos? José Castelo sentencia: “Se o mundo líquido estimula o consumo veloz desconstruindo descarte, ele estimula também o desejo de criar”. Bauman listava algumas vantagens deste nosso modo de vida: “Ele pode nos levar ao espírito de aventura, a uma imaginação mais expandida, a riscos férteis da liberdade íntima e nos aproximar de nós mesmo”. Muitos temem este viver a beira do abismo e correm para se agarrar a certezas que já deviam estar a muito tempo descartadas, como as crenças religiosas antigas.
Bauman se inquieta com a sanidade mental de gentes que não tem tempo para nada demorado e teme pela perda da identidade deles. Mas não foi isso que antigos buscadores da verdade ensinavam (como Buda), dizendo que precisamos vencer o desejo e precisamos diluir-nos na unidade do Universo? Na foi o que ensinou o mestre Jesus: “Portanto, não fiquem preocupados, dizendo: ‘Onde é que vou arranjar comida, bebida e roupas?’ Os pagãos estão sempre procurando estas coisas”. Não parece que estamos nos aproximando daquele desejo antigo do homem: um dia ser um espírito sem mais nenhuma razão para preocupação?
www.klepsidra.net/klepsidra23/modernidade.htm